“Máximo de gelo” e “terceiro menor” parecem expressões incompatíveis. Na Antártida, elas descrevem a mesma medição: o ponto em que o mar congelado mais se espalhou durante o inverno de 2026 ficou abaixo de quase todos os picos registrados por satélite.

A estimativa é de 17,59 milhões de quilômetros quadrados em 14 de setembro. Apenas 2023 e 2024 tiveram máximos menores na série iniciada no fim de 1978, segundo a NASA e o Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos Estados Unidos (NSIDC).

A NASA destacou o resultado em 12 de outubro. Para entendê-lo, é preciso separar duas coisas que cabem na expressão “gelo da Antártida”: o mar que congela a cada inverno e o manto de gelo acumulado sobre o continente.

A régua acompanha a área do mar, não a espessura

Extensão diária até 6 de outubro de 2026; gráfico em inglês. NSIDC / University of Colorado Boulder. Crédito e uso.

Gelo marinho é água do mar congelada que se forma e derrete todos os anos. É diferente do manto de gelo que cobre o continente antártico, acumulado ao longo de milênios. A medida usada aqui é a extensão: a área de oceano em que pelo menos 15% da superfície está coberta por gelo, segundo a definição da NASA Earth Observatory.

Essa área é vista por sensores de micro-ondas em satélites, que enxergam através das nuvens e da escuridão polar. Extensão não mede espessura nem volume do gelo; soma a área das regiões do oceano que atingem o limiar de 15% de cobertura.

Como a Antártida é um continente cercado de oceano, explica a NASA, o gelo marinho tem espaço para se espalhar muito no inverno e encolhe quase todo no verão. O mínimo acontece em fevereiro e o máximo em setembro.

Os máximos de 2023 e 2024, já revisados, foram de 17,07 milhões de km² em 9 de setembro e 17,26 milhões de km² em 16 de setembro, respectivamente. O valor de 2026 ainda é preliminar; o NSIDC considera empatados valores com diferença inferior a 40 mil km².

Em 2014, a história era outra

Entre 1979 e 2014, a extensão total do gelo antártico cresceu cerca de 1% por década, segundo a NASA. De 2012 a 2014, por três anos seguidos, os satélites registraram novos recordes de máximo no inverno. A partir de 2016 o quadro mudou, e 2023 trouxe tanto o menor mínimo quanto o menor máximo da série.

Em 2026, a extensão acompanhou valores próximos dos mínimos durante quase toda a temporada de crescimento, iniciada no fim de março. “O gelo marinho da Antártida nesta temporada ficou consistentemente atrás da média de longo prazo”, disse Ted Scambos, cientista sênior do NSIDC, no comunicado de 23 de setembro. Para ele, é a continuação de uma extensão abaixo da média em todas as estações na maior parte da última década.

Depois do pico, a queda foi rápida. A média de setembro ficou em 17,32 milhões de km², e o boletim de 7 de outubro apontou os menores valores diários para as datas observadas desde 2 de outubro, com as perdas concentradas nos mares de Ross e Amundsen e no setor do Oceano Índico, segundo a análise mensal do NSIDC.

O terceiro lugar ainda é uma estimativa

A própria NASA evita falar em tendência fechada. Os cientistas, diz a agência, continuarão observando a região todos os anos para descobrir se o declínio faz parte de uma mudança de longo prazo ou é uma flutuação estatística.

O número de 2026 também pode mudar. Ele vem de dados quase em tempo real, e os valores de 2023 e 2024 foram revisados para cima quando a análise final chegou. O NSIDC lembra ainda que grandes oscilações perto do máximo são típicas do gelo antártico, o que costuma atrasar a confirmação da data do pico.

A série de quase 48 anos começou com o satélite Nimbus-7, em 1978, e hoje depende de um sensor japonês da JAXA, em uso desde 2025. É com essa régua, e só com ela, que 2026 aparece em terceiro lugar entre os invernos com menos gelo no mar.

Leia também: a Antártida ganhou 695 bilhões de toneladas de gelo em dois anos, uma medição diferente, da massa do gelo continental.