O evento conhecido como o Ano do Elefante (Am al-Fil) representa uma das ocorrências pré-islâmicas mais significativas na Península Arábica, tendo alterado fundamentalmente o cenário religioso e político do Hejaz. Suas raízes remontam a Abraha, o vice-rei abissínio do Iêmen, que construiu uma magnífica catedral em Sanaa conhecida como al-Qullays. Seu objetivo principal era estabelecer esta catedral como o centro de peregrinação preeminente para os árabes, desviando assim o comércio e a devoção religiosa da Caaba, em Meca. Após um ato de profanação contra Alculais por um homem dos quinanaítas, Abraha jurou destruir a Caaba. Ele reuniu uma força militar massiva, que incluía notavelmente elefantes de guerra — animais até então desconhecidos para os árabes do norte — e iniciou uma marcha decisiva em direção a Meca, derrotando vários grupos tribais ao longo de sua rota que tentaram resistir ao seu avanço. Ao chegar aos arredores de Meca, em um lugar chamado Mughmas, os soldados de Abraha saquearam o gado dos habitantes locais, incluindo duzentos camelos pertencentes a Abede Almotalibe, a figura principal dos Coraixitas. Durante uma negociação histórica com o vice-rei, Abede Almotalibe solicitou apenas a devolução de seus camelos; quando Abraha expressou desapontamento por ele não estar implorando pela segurança da Caaba, Abede Almotalibe respondeu famosamente que, embora ele fosse o senhor dos camelos, a própria Casa tinha um Senhor que a defenderia. Após este encontro, os habitantes de Meca receberam ordens de se refugiarem nas colinas e vales circundantes para evitar o massacre iminente. De acordo com a tradição islâmica e o texto do Alcorão, enquanto o exército se preparava para seu ataque final, bandos de pássaros apareceram milagrosamente vindos do mar. Essas aves atingiram as forças invasoras com pequenas pedras de argila cozida (Sijjil), fazendo com que o exército se desintegrasse em um estado descrito como "palha mastigada", forçando, por fim, um Abraha humilhado a recuar para o Iêmen, onde pereceu. Além de sua natureza milagrosa, o Ano do Elefante tornou-se um marco cronológico crucial, servindo como o ponto de partida para o calendário usado pelos árabes pré-islâmicos para registrar eventos históricos subsequentes. Na historiografia islâmica, há um forte consenso de que este ano coincidiu com o nascimento do Profeta Maomé, tradicionalmente datado por volta de 570 ou 571 d.C. Essa sincronicidade é vista como uma preparação divina para a emergência do Profeta dentro de um santuário seguro e altamente respeitado. O fracasso da campanha de Abraha conferiu um nível de prestígio sem precedentes à Caaba e à tribo Coraixita, que passaram a ser honrados por outras tribos árabes como o "Povo de Deus" (Ahl Allah). Embora a pesquisa acadêmica moderna, citando várias inscrições como as de Murayghan, tenha sugerido datas alternativas para as expedições de Abraha ao norte — mais notavelmente 547 d.C. — a importância religiosa e cultural de Am al-Fil permanece como parte indelével da narrativa fundacional do Islã, marcando o fim da influência imperial estrangeira na Arábia central.

O Significado Religioso, Cronológico e Geopolítico do Ano do Elefante

O Ano do Elefante (Am al-Fil) possui um profundo significado religioso, cronológico e social na história islâmica e na tradição árabe pré-islâmica. Tradicionalmente datado em 570 ou 571 d.C., o ano é mais famoso pela invasão fracassada de Meca por Abraha, o vice-rei abissínio (etíope) do Iêmen . Um fator primordial para a importância desse ano é o forte consenso entre tradicionalistas e biógrafos de que Maomé nasceu no Ano do Elefante . Na tradição islâmica, essa sincronicidade é vista como uma preparação divina, garantindo que o Profeta emergisse em uma cidade que havia sido protegida e honrada por Deus de forma única. Na ausência de um sistema político unificado, os árabes pré-islâmicos utilizavam grandes ocorrências incomuns, como guerras ou fomes, como marcos para sua história . Consequentemente, o Ano do Elefante tornou-se o ponto de partida principal para o calendário árabe, usado para registrar eventos subsequentes por décadas até ser eventualmente substituído pela Era Hijri durante o califado de Umar . O significado religioso centra-se no milagre da proteção divina relatado na Surata al-Fil do Alcorão . De acordo com esses relatos, o exército de Abraha — que incluía um elefante de guerra — foi milagrosamente destruído por bandos de pássaros (Ababil) que atingiram os invasores com pedras de argila cozida (Sijjil), fazendo com que o exército se desintegrasse. Esse evento foi visto como um "sinal divino" inequívoco que estabeleceu a inviolabilidade sagrada da Caaba . O fracasso da campanha abissínia trouxe uma honra sem precedentes à tribo dos Coraixitas, os guardiões hereditários do santuário . Outras tribos árabes passaram a referir-se a eles como o "Povo de Deus" (Ahl Allah), fortalecendo significativamente a autoridade religiosa e política de Meca em toda a península . Esse status elevado levou, posteriormente, a um aumento acentuado no comércio e na prosperidade comercial da cidade . De uma perspectiva geopolítica, a invasão representou uma tentativa de uma potência estrangeira, frequentemente associada aos interesses do Império Bizantino, de desviar a peregrinação árabe para uma magnífica catedral em Sanaa conhecida como al-Qullays, enfraquecendo assim o sucesso comercial mecano . Sua derrota marcou o fim das ameaças militares imperiais estrangeiras contra Meca, permitindo que a cidade permanecesse como um centro ideológico e comercial independente no Hejaz .

Contexto Histórico e Precedentes Políticos

Durante o século VI d.C., a Península Arábica tornou-se um dos principais palcos da rivalidade geopolítica entre o Império Bizantino e o Império Sassânida . Os bizantinos, buscando assegurar rotas comerciais e conter a influência persa, apoiavam seu aliado, o Reino de Aksum (Abissínia), que havia sido cristianizado no século IV . Por volta de 530 d.C., Abraha, um general abissínio, tomou o poder no Iêmen, estabelecendo posteriormente um governo quase independente como vice-rei do Negus . Seu governo foi caracterizado pela ambição religiosa e pelo desejo de integrar a Arábia central à esfera de influência cristã-bizantina, particularmente através do controle das lucrativas rotas de caravanas de incenso e especiarias que ligavam o Oceano Índico ao Mediterrâneo .

Motivações Econômicas e a Catedral de al-Qullays Para avançar seus objetivos políticos e religiosos, Abraha construiu uma catedral magnífica e grandiosa em Sanaa, conhecida como al-Qullays (do grego ekklesia), com a qual pretendia estabelecer o centro de peregrinação preeminente para todos os árabes, desviando assim o comércio e a devoção da Caaba em Meca . Esta ofensiva religioso-econômica ameaçava o prestígio fundamental e o sustento dos Coraixitas, que serviam como guardiões do santuário mecano . A situação atingiu um ponto de ruptura quando um membro dos quinanaítas — aliados dos coraixitas — supostamente entrou na catedral de Sanaa e a profanou para demonstrar desprezo pela rivalidade de Abraha . Tomando isso como um casus belli, Abraha jurou demolir a Caaba e mobilizou uma força militar massiva de 60.000 soldados, posicionando famosamente elefantes de guerra na vanguarda para instilar medo nas tribos do norte que nunca haviam encontrado tais animais .

A Marcha sobre Meca e as Negociações O exército de Abraha enfrentou resistências esporádicas de tribos árabes setentrionais, incluindo um contingente liderado por Nufayl de Khath'am, mas as forças abissínias atravessaram facilmente suas fileiras e avançaram em direção ao Hejaz . Ao acampar em Mughmas, perto de Meca, um destacamento de Abraha saqueou o gado local, apreendendo duzentos camelos pertencentes a Abede Almotalibe, a principal figura dos coraixitas e avô do Profeta Maomé . Em uma negociação histórica no acampamento abissínio, Abede Almotalibe impressionou Abraha com sua dignidade, mas solicitou apenas a devolução de seus camelos . Quando Abraha expressou desapontamento por o chefe mecano não estar implorando pela segurança do santuário, Abede Almotalibe respondeu famosamente: "Eu sou o senhor dos camelos; a Casa, da mesma forma, tem um Senhor que a defenderá" . Posteriormente, os mecanos receberam ordens de se refugiarem nas colinas circundantes para evitar um massacre, enquanto Abede Almotalibe permaneceu à porta da Caaba, orando pela proteção divina para a "Casa de Deus" .

A Derrota Milagrosa e o Legado Duradouro A invasão chegou a um fim abrupto e catastrófico na manhã em que o exército se preparava para entrar em Meca. De acordo com o relato alcorânico na Surata al-Fil e as histórias tradicionais, o elefante recusou-se a avançar em direção à Caaba, e bandos de pássaros (Ababil) surgiram do mar, atingindo a hoste invasora com pequenas pedras de argila cozida (Sijjil) . Isso fez com que o exército se desintegrasse em um estado descrito como "palha mastigada", e Abraha pereceu pouco depois de sua retirada para Sanaa . Embora historiadores modernos tenham sugerido frequentemente que este "milagre" possa referir-se a um surto repentino de peste ou varíola (conforme observado por Procópio na mesma época), o evento assegurou o prestígio eterno de Meca e dos coraixitas como o "Povo de Deus" (Ahl Allah) . O Ano do Elefante (Am al-Fil), tradicionalmente datado em 570 ou 571 d.C., serviu como ponto de partida para o calendário árabe e coincidiu com o nascimento do Profeta Maomé, marcando o início de uma nova era para a Península Arábica .

A Expedição Militar de Abraha e a Marcha sobre Meca Após a profanação da catedral de al-Qullays em Sanaa por um homem dos quinanaítas, Abraha, o vice-rei abissínio do Iêmen, prestou um juramento solene de destruir a Caaba em retaliação . Para atingir esse objetivo, ele organizou e equipou uma força militar massiva consistindo de 60.000 soldados abissínios e guerreiros de tribos aliadas . Uma característica definidora dessa hoste foi a inclusão de elefantes de guerra na vanguarda — mais notavelmente um grande elefante chamado Mahmud — com a intenção de instilar medo nos corações dos árabes do norte e arrasar fisicamente a estrutura de pedra do santuário . Líderes mecanos e árabes, percebendo que sua independência religiosa e identidade cultural estavam em jogo, tentaram organizar uma defesa; no entanto, a memória dos sucessos militares anteriores de Abraha impediu a formação de uma frente tribal unificada . Durante a marcha decisiva em direção a Meca, o exército de Abraha encontrou diversas instâncias de resistência feroz por parte de várias tribos árabes que buscavam proteger o santuário . Dhu Nafr, um proeminente nobre iemenita, proferiu discursos apaixonados para convocar seu povo à defesa do Haram; contudo, suas forças foram rapidamente subjugadas pela superioridade militar abissínia, e ele foi feito cativo . Pouco depois, Nufayl ibn Habib al-Khath'ami liderou as tribos de Khath'am (incluindo os clãs Shahran e Nahis) em uma luta desesperada contra os invasores . Após sua derrota e captura, Abraha poupou a vida de Nufayl sob a estrita condição de que ele servisse como o guia principal do exército através dos territórios desérticos árduos e desconhecidos que levavam ao Hejaz . Quando a expedição alcançou a região de Ta'if, a tribo local Thaqif, intimidada pelo poder avassalador do exército abissínio e temendo pela segurança de seu próprio templo dedicado à deusa al-Lat, enviou uma delegação para negociar com Abraha . Eles informaram ao vice-rei que a Caaba de Meca não era de sua incumbência e expressaram disposição em cooperar para garantir sua passagem segura até a cidade . Em lugar de Nufayl, os Thaqif forneceram um guia especializado chamado Abu Rughal (ou Iwurghal), que conduziu as forças abissínias até os arredores de Meca, em um local chamado Mughmas . Abu Rughal morreu em Mughmas pouco depois da chegada do exército; sua memória tornou-se tão sinônimo de traição que os árabes tradicionalmente apedrejavam seu túmulo como sinal de desprezo . Enquanto acampava em Mughmas, Abraha ordenou que seu comandante, Aswad ibn Maqsud, realizasse um saque na área circundante para pilhar o gado e os bens dos habitantes locais de Tihamah . Durante essa operação, os soldados abissínios apreenderam uma grande quantidade de propriedades, incluindo duzentos camelos pertencentes a Abede Almotalibe, o líder preeminente dos Coraixitas e avô do Profeta Maomé . Nesta fase crítica, Abraha enviou um emissário chamado Hanatah à cidade para comunicar seu ultimato final à liderança coraixita: ele viera exclusivamente para a destruição física da Caaba e se absteria de mais derramamento de sangue se os mecanos não oferecessem resistência militar .

O Encontro Histórico Entre Abede Almotalibe e Abraha O encontro entre Abede Almotalibe e Abraha permanece como um dos episódios mais dramáticos e significativos dentro da narrativa do Ano do Elefante, destacando o confronto entre o poder material e a convicção religiosa . Após o exército abissínio atingir os arredores de Meca e estabelecer um grande acampamento em Mughmas, os soldados de Abraha realizaram uma série de saques para pilhar o gado e os bens dos habitantes locais . Durante essas operações, eles apreenderam um grande rebanho de duzentos camelos pertencentes a Abede Almotalibe, que servia como o líder preeminente dos Coraixitas e o guardião hereditário da Caaba . Após o confisco, Abraha enviou um emissário de alto escalão chamado Hanatah à cidade com o mandato específico de convocar o líder mecano ao seu acampamento . O enviado foi instruído a comunicar que as forças abissínias não buscavam uma guerra de conquista contra o povo, mas estavam unicamente decididas à destruição física do santuário . Abede Almotalibe, demonstrando uma resolução composta e digna, concordou em encontrar o vice-rei e dirigiu-se diretamente ao acampamento militar em Mughmas . Relatos históricos e tradicionais enfatizam que, após a chegada de Abede Almotalibe, Abraha ficou profundamente impressionado com sua aparência majestosa, semblante luminoso e avassalador senso de dignidade . O vice-rei teria sentido que seria inapropriado permanecer sentado em seu elevado trono real enquanto uma figura de tão evidente nobreza estava diante dele . Em um raro gesto de elevado respeito, Abraha desceu de seu assento e sentou-se com o chefe mecano em um tapete no chão para realizar a reunião em um nível de igualdade . Através de um intérprete, Abraha indagou sobre as exigências específicas de Abede Almotalibe . Em uma resposta calma e inesperada, Abede Almotalibe solicitou nada mais do que a devolução imediata de seus duzentos camelos que haviam sido saqueados pelas tropas abissínias . Este pedido inicialmente decepcionou Abraha, que comentou que, embora tivesse sido cativado pela presença nobre do chefe, suas palavras haviam diminuído sua estatura . Abraha questionou como um líder poderia suplicar por causa de alguns animais enquanto permanecia em silêncio sobre a iminente destruição da Caaba, que representava o cerne de sua religião ancestral e a honra de sua tribo . Em resposta a este desafio, Abede Almotalibe proferiu sua famosa e histórica réplica: "Eu sou o senhor dos camelos; a Casa, da mesma forma, tem um Senhor que a defenderá" . Atordoado por esta demonstração inabalável de fé na proteção divina e pela absoluta certeza do chefe de que o santuário estava além de sua própria jurisdição mortal, Abraha ordenou que os camelos lhe fossem devolvidos imediatamente . Após a conclusão da reunião, Abede Almotalibe retornou à cidade e instruiu a população de Meca a buscar refúgio nas colinas e vales circundantes para garantir sua segurança física contra o ataque iminente . Ele então permaneceu à porta da Caaba, orando por intervenção divina para proteger a "Casa de Deus" da hoste invasora . Relatos tradicionais sugerem que este encontro serviu como um poderoso símbolo do contraste entre o poder militar mundano e a força da convicção religiosa, preparando o cenário para os eventos milagrosos que se seguiriam .

A Invasão de Meca e a Derrota Milagrosa do Exército de Abraha

Ao chegar aos arredores de Meca, a massiva força expedicionária liderada por Abraha, o vice-rei abissínio do Iêmen, estabeleceu seu acampamento principal em Mughmas . Desse local estratégico, Abraha enviou um destacamento sob o comando de Aswad ibn Maqsud para saquear o gado e os bens dos habitantes locais . Entre as propriedades confiscadas estavam duzentos camelos pertencentes a Abede Almotalibe, o líder preeminente dos Coraixitas e avô do Profeta Maomé . Após esse saque, Abraha enviou um emissário chamado Hanatah à cidade com um mandato claro e firme: encontrar o chefe de Meca e entregar um ultimato final . A mensagem declarava que Abraha não viera para uma guerra de conquista contra o povo, mas pretendia apenas a destruição física da Caaba; se os habitantes não oferecessem resistência militar, nenhum sangue seria derramado . Abede Almotalibe aceitou a oferta de negociação e dirigiu-se ao acampamento abissínio. Relatos históricos e tradicionais enfatizam que, ao entrar na tenda, Abraha ficou tão profundamente impressionado com a aparência majestosa e a dignidade de Abede Almotalibe que o vice-rei desceu de seu trono real para sentar-se com o chefe mecano em um tapete no chão, como iguais . Durante a conversa, quando Abede Almotalibe solicitou apenas a devolução imediata de seus duzentos camelos, Abraha expressou decepção, comentando que havia sido inicialmente cativado pela presença nobre do chefe, mas que sua estatura agora havia diminuído em seus olhos . Abraha questionou como um líder poderia suplicar por causa de alguns animais enquanto permanecia em silêncio sobre a iminente destruição do santuário que representava o cerne de sua religião ancestral . Abede Almotalibe então proferiu sua resposta imortal: "Eu sou o senhor dos camelos; a Casa, da mesma forma, tem um Senhor que a defenderá" .

Após a reunião e a libertação dos camelos, Abede Almotalibe retornou à cidade e instruiu a população de Meca a buscar refúgio nas colinas e passagens montanhosas circundantes para garantir sua segurança contra a hoste invasora . Enquanto a cidade se esvaziava, Abede Almotalibe permaneceu à porta da Caaba, segurando seu anel e oferecendo orações fervorosas, implorando a Deus para proteger Sua Casa contra os seguidores da "Cruz" e os invasores estrangeiros . Na manhã em que o exército se preparava para o assalto final, ocorreram eventos extraordinários: o principal elefante de guerra de Abraha, chamado Mahmud, subitamente ajoelhou-se e recusou-se a avançar em direção ao santuário . Apesar de ser golpeado com barras de ferro para forçar o movimento, o elefante permanecia estacionário quando voltado para Meca, mas movia-se com grande velocidade sempre que era voltado para o Iêmen ou a Síria . A invasão chegou a um fim catastrófico quando bandos massivos de pássaros, conhecidos nas fontes tradicionais como os Ababil, surgiram subitamente do mar . Cada pássaro carregava três pequenas pedras de argila cozida (Sijjil), as quais arremessaram sobre os soldados invasores . O impacto fez com que os corpos dos soldados entrassem em decomposição com uma velocidade aterradora, um estado descrito no Alcorão como sendo semelhante a "palha mastigada" . A hoste abissínia foi tomada pelo pânico e recuou em desordem, com muitos morrendo ao longo do caminho de volta ao Iêmen . Abraha conseguiu chegar a Sanaa, mas pereceu pouco depois, enquanto seu corpo supostamente se desintegrava membro por membro . Este evento, tradicionalmente datado em 570 ou 571 d.C., estabeleceu Meca como uma terra sagrada divinamente protegida e garantiu o prestígio sem precedentes dos coraixitas como o "Povo de Deus" (Ahl Allah) em toda a península .

O Rescaldo e o Significado Histórico da Derrota de Abraha Após a intervenção catastrófica e milagrosa que dizimou as suas forças em Mughmas, os remanescentes do exército abissínio recuaram em um estado de total desordem e terror . Relatos históricos registram que os poucos soldados que sobreviveram à barragem inicial de pedras pereceram em grande número durante a árdua jornada de volta ao Iêmen, sucumbindo aos seus ferimentos e ao trauma psicológico do evento . O próprio Abraha conseguiu chegar à capital, Sanaa, mas seu estado era terrível; as narrativas tradicionais descrevem seu corpo como tendo sido fisicamente devastado, com sua carne supostamente caindo membro a membro . Ele morreu pouco depois de sua chegada, marcando um fim definitivo e humilhante à sua ambiciosa campanha para substituir a Caaba como o centro religioso da Península Arábica . O impacto desse evento na paisagem religiosa e social da Arábia foi profundo e imediato. Como a vitória foi alcançada por meio do que foi percebido como intervenção divina direta, em vez da proeza militar das tribos locais, o status da Caaba como um santuário divinamente protegido foi consolidado na mente dos árabes . Os Coraixitas, que serviam como guardiões do santuário, viram seu prestígio atingir alturas sem precedentes . Eles foram agraciados com o título de "Ahl Allah" (o Povo de Deus) por outras tribos, que acreditavam que o Criador havia agido pessoalmente para defendê-los de uma potência imperial estrangeira . Essa nova autoridade religiosa traduziu-se diretamente em prosperidade econômica; Meca tornou-se o centro comercial mais importante da região, e as caravanas coraixitas passaram a ter passagem segura e imenso respeito em toda a península, permitindo que suas redes comerciais florescessem . Além de seus efeitos imediatos, a derrota de Abraha teve consequências geopolíticas e cronológicas significativas. Sinalizou o fim da influência abissínia no Hejaz e enfraqueceu seu domínio sobre o Iêmen, abrindo caminho para que o Império Persa Sassânida eventualmente interviesse e expulsasse os abissínios do sul da península alguns anos depois . Cronologicamente, o evento foi tão memorável que os árabes adotaram o "Ano do Elefante" como ponto de partida para seu calendário, usando-o para datar os principais eventos subsequentes até o estabelecimento da Era Hijri . Na tradição islâmica, o significado mais vital deste ano é a sua sincronicidade com o nascimento do Profeta Maomé . Esse momento é visto como uma preparação divina, garantindo que o Mensageiro final nascesse em uma cidade singularmente honrada e preservada da subjugação estrangeira . Algumas análises históricas modernas sugeriram adicionalmente que a desintegração repentina da hoste poderia estar ligada a um surto rápido de uma doença contagiosa, como a varíola ou a peste .

Referências Alcorânicas ao Ano do Elefante

Os eventos cercantes do Ano do Elefante e a invasão fracassada de Meca pelas forças de Abraha são diretamente comemorados no Alcorão dentro da Surata al-Fil (Capítulo 105) . Nesses versículos, os atacantes são explicitamente identificados como os "Companheiros do Elefante" (Ashab al-Fil), uma designação que faz referência ao elefante de guerra utilizado na vanguarda do exército abissínio com a intenção de arrasar a Caaba . A surata serve como um lembrete teológico conciso, mas poderoso, da soberania divina e da proteção do santuário sagrado contra forças materiais superiores .

O relato alcorânico enfatiza o fracasso total da estratégia dos invasores, afirmando que Deus tornou seus "planos malignos" ou estratagemas (kayd) em um estado de confusão e futilidade . O mecanismo principal desta derrota é descrito como a chegada de bandos massivos de pássaros, identificados na exegese tradicional como os Ababil . Estas aves foram enviadas por comando divino para atingir o exército, arremessando contra eles pedras de argila cozida ou lama petrificada conhecidas como Sijjil . O impacto deste bombardeio aéreo foi tão devastador que o exército foi reduzido a um estado que o Alcorão compara a "palha mastigada" ou "restos de grama pastada" (asf m'akul), significando sua completa desintegração e humilhação . Esta Surata afirma:Não reparaste no que o teu Senhor fez, com os possuidores dos elefantes?[1] Acaso, não desbaratou Ele as suas conspirações,[2] Enviando contra eles um bando de criaturas aladas,[3] Que lhes arrojaram pedras de argila endurecida*E os deixou como plantações devastadas (pelo gado)? [4] [1]Na tradição islâmica, a inclusão deste evento no Alcorão fornece um registro permanente do milagre que estabeleceu a inviolabilidade sagrada da Caaba . É interpretado como um claro "sinal divino" que elevou o prestígio religioso de Meca pouco antes do surgimento do Islã . Além disso, a surata é vista como uma lição histórica sobre a capacidade de Deus de proteger Sua casa das ambições imperiais de potências estrangeiras, como o Reino de Axum . A proximidade deste evento com o nascimento do Profeta Maomé é vista pelos comentaristas como uma preparação providencial, garantindo que o mensageiro final nascesse em uma cidade singularmente honrada e preservada por Deus .

Referências

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