O assassinato de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil do Estado de São Paulo, ocorreu em 15 de setembro de 2025, em Praia Grande, no litoral paulista. Fontes foi morto em uma emboscada que envolveu perseguição, colisão e execução a tiros de fuzil, em circunstâncias que levantaram suspeitas sobre participação do crime organizado, especialmente do Primeiro Comando da Capital (PCC), em razão do histórico de Fontes no combate à facção. O caso gerou forte repercussão política e institucional e mobilizou uma ampla força-tarefa policial para identificar executores, colaboradores e possíveis mandantes.

O crime Na tarde de 15 de setembro de 2025, por volta das 18 horas, Fontes saía da Prefeitura de Praia Grande quando passou a ser perseguido por uma caminhonete Toyota Hilux. O delegado dirigia seu veículo particular quando, ao tentar escapar dos disparos iniciais pela Rua 1o de Janeiro, foi perseguido por cerca de 500 metros. Na Avenida Dr. Roberto de Almeida Vinhas, perdeu o controle e colidiu em alta velocidade com um ônibus. O impacto provocou o capotamento do automóvel, deixando-o vulnerável. Em seguida, criminosos armados com fuzis desceram do veículo em que estavam, se aproximaram do carro capotado e efetuaram disparos à queima-roupa. Fontes morreu no local antes da chegada do socorro. Pelo menos duas pessoas que estavam próximas ficaram feridas de forma não letal. Após a execução, os criminosos incendiaram um dos veículos utilizados na fuga para dificultar a investigação. Tanto o Toyota Hilux quanto o Jeep Renegade, também utilizado no crime, eram roubados.

Investigação

Força-tarefa estadual Ainda no dia 15 de setembro, o Secretário de Segurança Pública do estado de São Paulo, Guilherme Derrite, anunciou em suas redes sociais a criação de uma força-tarefa para prender os autores do crime. A investigação do caso foi assumida pela Polícia Civil de São Paulo, com a participação do DHPP, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo e de diversas unidades especializadas, incluindo Deic, Dope e Deinter 6. Também foram mobilizados efetivos da Polícia Militar do Estado de São Paulo, como o Baep de Santos e a ROTA. As primeiras diligências identificaram veículos usados no crime, sendo confirmada também a utilização de fuzis. A perícia da Polícia Técnico-Científica apontou que os criminosos envolvidos no crime usaram dois tipos diferentes de fuzis no crime: um de calibre 556 e outro de 762.

Prisões Durante as investigações, os policiais conseguiram identificar vários suspeitos de envolvimento no assassinato através das impressões digitais e materiais genéticos encontrados na cena do crime. Dias após a execução, a polícia prendeu Dahesly Oliveira Pires, suspeita de transportar uma das armas usadas na emboscada. Outros envolvidos, como Luiz Henrique Santos Batista, conhecido como "Fofão", e Luiz Antônio Rodrigues de Miranda, foram apontados como responsáveis por fornecer apoio logístico. Uma semana após a execução, sete pessoas já haviam tido suas prisões decretadas pela Justiça, incluindo Flávio Henrique Ferreira de Souza e Felipe Avelino da Silva, o "Mascherano", investigados como executores. No período, já tinham sido identificados Rafael Marcell Dias Simões e William Silva Marques, apontados como integrantes do grupo criminoso responsável pela logística do ataque. Em 6 de outubro, a polícia em Cotia, na Grande São Paulo, prendeu "Mascherano", o quinto suspeito de envolvimento no assassinato de Ruy Ferraz Fontes. Segundo a investigação, os vestígios do seu DNA foram encontrados em um dos carros utilizados no crime. Já no dia 15 do mesmo mês, a Policia Civil de São Paulo prendeu Danilo Pereira Pena, de 36 anos, conhecido como "Matemático", suspeito de envolvimento no assassinato de Ruy Ferraz Fontes, quando o crime completou um mês. Dois dias depois, no dia 17, a corporação prendeu também o sétimo suspeito de envolvimento na execução de Ruy Ferraz Fontes, identificado como Cristiano Alves da Silva, ou Cris Brown, que é o dono da casa usada pelos outros suspeitos do mesmo crime em Mongaguá, na Baixada Santista, cidade vizinha a Praia Grande, onde aconteceu o assassinato. Em 21 de outubro, a força-tarefa da Policia Civil de São Paulo prendeu o oitavo suspeito de participar do crime. O suspeito foi identificado como José Nildo da Silva, de 47 anos, que foi preso em Itanhaém, no Litoral Sul, durante a madrugada. Em 25 de outubro, o nono suspeito de de participar do crime foi preso e identificado como Paulo Henrique Caetano Sales, de 38 anos, conhecido pelo apelido de PH, que é dono de uma mais uma das quatro casas de Praia Grande utilizadas pelos criminosos que participaram da execução do ex-delegado-geral do estado. Em 13 de novembro, a Polícia Civil de São Paulo concluiu o primeiro inquérito sobre a morte de Ruy Ferraz Fontes e indiciou 12 pessoas por planejamento e execução do assassinato. Dois meses depois do caso, em novembro de 2025, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo determinou a soltura de cinco suspeitos, que tiveram a prisão preventiva negada e terão monitoramento por tornozeleira eletrônica. Em 13 de janeiro de 2026, a Polícia Civil de São Paulo prendeu três integrantes do PCC, acusados de mandar matar Ruy Ferraz Fontes. Os criminosos foram presos em São Paulo, Mongaguá e Jundiaí no mesmo dia e têm longo histórico criminal, principalmente com relações a crimes patrimoniais.

Envolvimento do PCC As autoridades consideraram praticamente certo o envolvimento do PCC no crime, mesmo com indefinições quanto à possibilidade do caso estar relacionado com a atuação de Fontes na Prefeitura de Praia Grande. Tanto para Derrite, quanto para o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, o crime organizado estaria associado ao homicídio seja pela anuência, seja pela efetivação. Em 21 de novembro, o Ministério Público de São Paulo disse que a morte do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes foi ordenada pelo alto escalão do PCC como vingança por atuação contra a facção ao longo da carreira.

Planos de execução Em 2024, o Ministério Público (MP) produziu um relatório que revelou a existência de planos de execuções contra diversas autoridades públicas, incluindo o ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes. A descoberta derivou da investigação contra integrantes do PCC que comandavam a chamada "Sintonia Restrita", um setor da facção responsável por organizar resgates e atentados contra agentes públicos. Segundo os investigadores, as ordens para os assassinatos partiam de dentro dos presídios e eram repassadas a Janeferson Aparecido Mariano Gomes, o Nefo. As informações encontradas no celular de Nefo possibilitaram ao Ministério Público organizar o relatório, intitulado de "Bate Bola", que detalhava os planos de atentados. O "item 16" do documento, divulgado pelo programa Fantástico, da TV Globo, tratava da retaliação do PCC contra o promotor Lincoln Gakiya e o ex-delegado Ruy Fontes. Após a descoberta feita pelo MP, a própria facção teria julgado e condenado o preso à morte por não proteger adequadamente as informações escrutinadas. Nefo foi assassinado na Penitenciária Maurício Henrique Guimarães Pereira, em Presidente Venceslau, em junho de 2024.

Morte de suspeito Em 30 de setembro, um dos suspeitos do assassinato de Ruy Fontes, Umberto Alberto Gomes, foi morto em troca de tiros com a Polícia Civil do Paraná em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Ao ter a prisão decretada, fugiu para o estado vizinho. De acordo com a Polícia, ao ser encontrado por investigadores, "entrou em confronto com as equipes e foi neutralizado".

Repercussão O assassinato de Ruy Ferraz Fontes recebeu ampla cobertura midiática e repercutiu de forma relevante no meio político e policial. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o Governo Federal manifestaram pesar e ofereceram apoio às investigações, incluindo a colaboração da Polícia Federal e de órgãos periciais. Conjutamente, o Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) pressionou a gestão de Tarcísio por mais proteção à classe após o assassinato. Já no Congresso Nacional, durante a sessão legislativa no dia 16 de setembro de 2025, senadores cobraram a aprovação de leis mais duras contra o crime organizado e também a indicação dos membros da casa para a abertura de uma CPI com esse fim, que à época já tinha seu requerimento lido, mas não havia sido instalada por falta de composição. O senador Sérgio Moro destacou o projeto de lei apresentado por ele (PL 1 307/2023), que tipifica os crimes de obstrução e conspiração para impedir o combate ao crime organizado e que amplia a proteção dos agentes públicos envolvidos no combate às facções criminosas. Em 16 de dezembro de 2025, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) aprovou a Lei Complementar Delegado Ruy Fontes que autoriza segurança pessoal a autoridades e ex-autoridades de cargos estratégicos do estado. O projeto de lei foi apresentado um dia após o assassinato do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes.

Referências