Pouca vergonha

Devido aos preconceitos, o universo BDSM é cercado por uma série de dúvidas e tabus. Ao Metrópoles, fetichista comenta mitos e curiosidades

Julia de Mesquita

09/10/2026 02:00

Getty Images

Cercado por estereótipos e crenças distorcidas por filmes como Cinquenta Tons de Cinza, o BDSM é o universo complexo. Suas práticas consensuais envolvem dinâmicas baseadas em confiança, comunicação e acordos francos entre adultos. A sigla — que significa bondage, disciplina, sadismo e masoquismo — reúne uma infinidade de vertentes e tem ganhado cada vez mais espaço em debates sobre sexualidade livre.

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Por ser um meio com muitos nichos e possibilidades, é natural que quem está de fora sinta curiosidade sobre seu funcionamento. Pensando nisso, a coluna Pouca Vergonha decidiu conversar com Heitor Werneck, produtor cultural e especialista no tema, para desmistificar os preconceitos e mostrar que a prática vai além das algemas e dos chicotes.

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Confira as respostas!
Principais mitos e curiosidade comentados por um fetichista
- Depois de mais de 20 anos frequentando e organizando festas BDSM, qual é, na sua opinião, a maior curiosidade sobre esse universo que ainda surpreende quem está de fora?
O que eu vejo hoje em dia ainda é muito preconceito e muita vergonha. O que acontece com o fetiche é que a gente vive em uma sociedade cheia de preocupações sobre o que o outro vai pensar. Por exemplo, há muita gente que gosta de golden shower e que tem vergonha de falar que é fetichista.
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E a palavra fetiche vem da palavra feitiço. Então você usa algumas partes do corpo, algumas partes de indumentária ou algumas partes de excitação para encantar, e não para exercer o pleno poder. A própria relação poder-submissão é uma escolha consensual.
- Que regras ou códigos de comportamento existem nas festas BDSM e costumam não ser revelados ao público de fora?
BDSM e o fetiche se baseiam no princípio SSC, que significa São, Seguro e Consensual. Você não vai fazer com o outro nada que ele não queira; tudo é combinado. Existem as red flags (bandeiras vermelhas) e as palavras de segurança, combinadas para sinalizar o fim das práticas quando a pessoa chega ao seu limite — e que devem ser rigorosamente respeitadas por quem está interagindo.
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BDSM tem uma série de fetiches
Até mesmo uma relação de submissão, em que uma pessoa se dedica à outra no sentido de “aquele é meu dono”, existe um contrato com regras claras que são seguidas. No fetiche, há responsabilidade pelo corpo e pela mente do outro. Tanto que existe o aftercare (pós-cuidado): depois de uma sessão, você cuida daquela pessoa mental e fisicamente.
- Qual é o maior mito sobre BDSM que você mais ouve e que não corresponde à realidade de quem frequenta esse meio?
As pessoas fora do universo BDSM ainda não entendem uma relação 24/7 — a qual, por sinal, acho linda. É aquele tipo de relacionamento em que os parceiros vivenciam seus fetiches e práticas juntos, 24 horas por dia, sete dias por semana. Isso é muito bonito e, acima de tudo, íntegro: há um contrato estabelecido e muito respeito envolvido.
- O que acontece quando alguém ultrapassa um limite ou desrespeita uma regra durante uma festa?
Nos 20 anos do meu projeto, eu só tive três episódios de desrespeito às regras da festa. A regra número um é que não é permitido o uso de drogas, assim como também não permitimos a permanência de pessoas alcoolizadas no recinto. Nesses casos, eu peço para a pessoa ser convidada a retirar-se. Afinal, a gente não pode entregar o corpo para alguém que está fora do seu domínio próprio.
Reprodução/Magnific
As festas BDSM contam com regras baseadas no respeito ao outro
- O que as pessoas mais perguntam quando descobrem que você participa desse universo há mais de 20 anos?
Uma das coisas que eu mais escuto é: “Que roupa é preciso usar? Tem que ser roupa de fetiche?”. Há 20 anos, eu explico que não precisa, pode ir com uma roupa preta e um sapato bonito. Depois que estiver mais habituado, pode ir vestido como fetichista. Aviso também que não é uma bacanal, é uma festa de fetiche — vá para ter essa experiência.
- Qual é a diferença entre o BDSM que aparece em filmes e séries e o que você vê nas festas?
Eu acho que ainda há uma produção enorme e marcante que retrata o BDSM como terror ou como um traço de personalidade de serial killers e psicopatas, além de associar frequentemente o tema à prostituição. Isso contribui diretamente para a manutenção do preconceito.
Magnific
A prática envolve consenso, respeito e acordo
- Ao longo desse tempo, qual foi a situação mais inusitada ou inesperada que você presenciou em um evento?
Eu, como uma pessoa autista, trouxe também a verdade de que o fetiche ainda tem que aceitar que o PCD, a pessoa negra ou a pessoa mais velha podem ser corpos erotizados. É um lugar onde há uma liberdade maior, sem que as pessoas tenham que expressar seus fetiches escondidas e declarando que odeiam o fetiche.
Outra coisa que me emocionou foi ter levado a Ala Fetichista para a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Então, falar de sexo, incluir o fetiche, incluir o PCD, incluir a etariedade, os corpos negros, periféricos e gordos é um avanço que tive e que muito me orgulha.


