Dom Quixote é uma série de 370 gravuras em metal e xilogravuras criada por Gustave Doré, eminente artista francês do século XIX, para a ilustração de Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes na edição em francês de 1863. Do total das gravuras de Gustave Doré para ilustração de D. Quixote é apresentada a seguir uma selecção ilustrativa dos capítulos do volume II da edição em inglês de 1880 editado por J. W. Clark e integrada no ebook "Don Quixote" do Project Gutenberg, que utiliza a tradução de John Ormsby de 1885. Para as ilustrações constantes do Volume I ver Dom Quixote (Gustave Doré).
Volume II
Dedicatória ao Conde de Lemos
Prólogo
"VALHA-ME DEUS, com quanta vontade deves de estar esperando agora, leitor ilustre, ou plebeu, este prólogo, julgando achar nele vinganças, pugnas e vitupérios contra o autor do segundo D. Quixote; quero dizer, contra aquele que dizem que se gerou em Tordesilhas e nasceu em Tarragona. Pois em verdade te digo que te não hei-de dar esse contentamento, que, ainda que os agravos despertam a cólera nos mais humildes peitos, no meu há-de ter exceção esta regra. Quererias que eu lhe chamasse asno, atrevido e mentecapto; mas tal me não passa pelo pensamento; castigue-o o seu pecado e trague-o a seu bel-prazer, e que lhe não faça engulhos."
"...e não lhe digas mais, nem eu quero dizer-te mais a ti, senão advertir-te que esta segunda parte do D. Quixote, que te ofereço, é cortada pelo mesmo oficial e no mesmo pano que a primeira, e que te dou nela D. Quixote dilatado, e finalmente morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar-lhe novos testemunhos, pois já bastam os passados, e basta também que um homem honrado desse notícia destas discretas loucuras, sem querer de novo entrar com elas; que a abundância das coisas, ainda que sejam boas, faz com que se não estimem, e as más, quando são raras, alguma coisa se apreciam. Esquecia-me de te dizer que esperes o Pérsiles, que já estou acabando, e a segunda parte da Galateia.
Capítulo I — Do que passaram o cura e o barbeiro com D. Quixote acerca da sua enfermidade
"...o cura e o barbeiro estiveram mais dum mês sem o ver, para lhe não renovarem e trazerem à memória as coisas passadas; mas nem por isso deixaram de visitar a sobrinha e a ama, recomendando-lhes que cuidassem de lhe dar bastantes regalos, guisando-lhe manjares confortativos e apropriados para o coração e o cérebro, donde procedia segundo o bom discorrer, toda a sua má ventura, e disseram elas que assim o faziam e continuariam a fazer com a melhor vontade e o maior cuidado possível, porque viam que o fidalgo ia dando a cada momento sinais de estar em todo o seu juízo.
Ficaram ambos muito satisfeitos, por lhes parecer que tinham procedido acertadamente em o trazer encantado num carro de bois, como se contou na primeira parte desta grande e verídica história, no último capítulo, e assim resolveram visitá-lo e experimentar se estava curado, ainda que tinham quase por impossível que o estivesse, e deliberaram não lhe falar em coisa alguma de cavalaria andante, para não correrem perigo de lhe abrir de novo a ferida, que ainda estava tão fresca. Visitaram-no, enfim, e acharam-no sentado na cama, vestido com um roupão de baeta verde, e na cabeça um barrete toledano de cor; e estava tão seco e mirrado, que não parecia senão uma múmia. Foram por ele muito bem recebidos, perguntaram-lhe pela sua saúde, e ele deu conta de si e dela, com muito juízo e muito elegantes palavras; e, no decorrer da sua prática, vieram a tratar do que chamam razão de estado e modos de governo, emendando este abuso e condenando aquele, reformando um costume e desterrando outro, fazendo-se cada um dos três um legislador, um Licurgo moderno ou um Sólon flamante.
Capítulo II — Que trata da notável pendência, que Sancho Pança teve com a sobrinha e ama de D. Quixote, e de outros sucessos graciosos
"..os brados que ouviram D. Quixote, o cura e o barbeiro, eram da sobrinha e da ama, dizendo esta a Sancho Pança, que pugnava para entrar e ver D. Quixote, enquanto elas defendiam a porta: — Que quer este mostrengo nesta casa? Ide-vos para a vossa, irmão, que sois vós e não outrem quem tresvaria e alicia o meu amo, e o arrasta para essas andanças.
A que Sancho respondeu: — Ó ama de Satanás, o tresvariado e o aliciado e o arrastado sou eu, e não teu amo; ele me levou por esses mundos de Cristo, e vós outras vos enganais de meio a meio; foi ele que me tirou da minha casa, com muitas lérias, prometendo-me uma ilha, que ainda hoje estou à espera dela. — Más ilhas te afoguem — respondeu a sobrinha — Sancho maldito; e que vem a ser isso de ilhas? é coisa de comer, guloso e comilão que tu és? — Não é de comer — tornou Sancho — mas de reger e governar, melhor do que quatro cidades e quatro alcaidarias da corte. — Pois com tudo isso — insistiu a ama — não entrareis cá, saco de maldades e costal de malícias; ide-vos governar a vossa casa, e lavrar as vossas leiras, e deixai-vos lá de querer ilhas nem ilhos. "....mas se Vossa Mercê quer saber ao certo tudo o que há acerca das calunas que lhe levantaram, eu aqui lhe trago logo quem lhas dirá todas, sem lhe faltar nem uma mealha, que esta noite chegou o filho de Bartolomeu Carrasco, que vem de estudar em Salamanca e feito bacharel, e, indo-lhe eu a dar os emboras pela sua chegada, disse-me que já andava em livros a história de Vossa Mercê, com o nome do Engenhoso fidalgo D. Quixote de la Mancha, e que lá dão conta de mim com o meu próprio nome de Sancho Pança, e da senhora Dulcinéia del Toboso, com outras coisas que passamos a sós, que eu me benzi de espantado, de como as pôde saber o historiador que as escreveu.
Capítulo III — Do divertido arrazoamento que houve entre D. Quixote, Sancho Pança e o bacharel Sansão Carrasco
"Era o bacharel, apesar de se chamar Sansão, não muito alto nem robusto, magano deveras, de cor macilenta, mas de ótimo entendimento; teria os seus vinte e quatro anos, cara redonda, nariz chato e boca grande, tudo sinais de ser malicioso de condição, e amigo de donaires e de burlas, como mostrou assim que viu D. Quixote, pondo-se de joelhos diante dele, e dizendo-lhe: — Dê-me Vossa Mercê as suas mãos, senhor D. Quixote de la Mancha, que, pelo hábito de S. Pedro que visto apesar de não ter outras ordens senão as quatro primeiras, é Vossa Mercê um dos mais famosos cavaleiros andantes que tem havido, ou haverá em toda a redondeza da terra. Bem haja Cid Hamete Benengeli, que deixou escrita a história das vossas grandezas, e se bem haja o curioso que teve cuidado de a mandar traduzir do árabe no nosso castelhano vulgar, para universal entretenimento das gentes. D. Quixote fê-lo levantar, e disse: — Com que então, é verdade haver uma história dos meus feitos, e ser mouro e sábio quem a compôs?...."
"... e alguns culparam de falta e de dolo a memória do autor, pois se esquece de contar quem foi o ladrão que furtou o ruço a Sancho, coisa que ali se não declara, e só do que está escrito se infere que lho tiraram, e dali a pouco vemo-lo montado no mesmo jumento, sem se saber como; também dizem que se esqueceu de dizer o que Sancho fez aos cem escudos que encontrou na maleta na Serra Morena, que nunca mais falou neles, e há muitos que desejam saber em que os gastou, que é um dos pontos essenciais que faltam na obra. Sancho respondeu: — Eu, senhor Sansão, não estou agora para contas; deu-me uma fraqueza no estômago, que, se lhe não acudo com uma pinga, é capaz de me pôr na espinha; tenho-a em casa, onde me espera, e, em acabando de jantar, por aí estou de volta para o satisfazer a Vossa Mercê e a todo o mundo que me quiser dirigir perguntas; tanto a respeito da perda do jumento como do gasto dos cem escudos. E, sem esperar resposta, nem dizer mais palavra, foi para casa. D. Quixote pediu ao bacharel que ficasse para fazer penitência com ele. ..."
Capítulo IV — Em que Sancho Pança satisfaz ao bacharel Carrasco, acerca das suas dúvidas e perguntas, com outros sucessos dignos de se saber e de se contar
"...Voltou Sancho a casa de D. Quixote, e, tornando à mesma palestra:
— Visto que o senhor Sansão disse desejar saber quem me furtou o jumento, e como e quando, respondo que na mesma noite em que, fugindo à Santa Irmandade, nos internamos na Serra Morena; depois da desventurada aventura dos galeotes e da do defunto que levavam a Segóvia, eu e meu amo metemo-nos por uma espessura, onde meu amo, arrimado à sua lança, e eu em cima do meu ruço, moídos e cansados das passadas refregas, nos pusemos a dormir como se estivéssemos em cima de quatro colchões de plumas, eu especialmente com sono tão pesado, que quem quer que foi pôde chegar-se a mim, amezendar-me em cima de quatro estacas, que pôs aos quatro cantos da albarda, de forma que me deixou a cavalo nelas, e tirou debaixo de mim o burro, sem eu o sentir. — Isso é coisa fácil de acontecer, e não caso novo, que o mesmo sucedeu a Sacripante, quando, estando no cerco de Albraca, o famoso ladrão Brunelo, com essa mesma invenção, lhe tirou o cavalo debaixo das pernas.
— Amanheceu — prosseguiu Sancho — e apenas acordei, logo, escapando-me as estacas, dei comigo no chão. Procurei o jumento e não o vi. Vieram-me as lágrimas aos olhos, fiz uma lamentação, que, se a não pôs no livro o autor da nossa história se pode gabar de que lhe faltou uma coisa boa deveras. ..."
Capítulo V — Da discreta e graciosa prática que houve entre Sancho Pança e sua mulher Teresa Pança, e outros sucessos dignos de feliz recordação
"...— Donde nasce que, quando vemos alguma pessoa, bem ajaezada, ricamente vestida, e com grande pompa de criados, parece que à viva força nos move e convida a que lhe tenhamos respeito, ainda que a memória nesse momento nos lembre alguma baixeza em que a tivéssemos visto, e essa ignomínia, ou venha da indigência ou da linhagem, como já passou, não existe, e o que existe é o que vemos presente; e se este que a fortuna tirou da pobreza (que por estas mesmas razões assim o disse o padre), para o levantar à altura da sua prosperidade, for bem-criado, liberal, e cortês com todos, e não se quiser igualar com aqueles que por antiguidade são nobres, tem por certo, Teresa, que não haverá quem se recorde do que foi, mas reverenciará o que é, a não serem os invejosos, contra os quais não está segura nenhuma próspera fortuna.
"...— No dia em que eu a vir condessa — acudiu Teresa — farei de conta que a enterro; mas outra vez te digo que faças dela o que tiveres na vontade, que com esta obrigação nasceram as mulheres de ser obedientes a seus maridos, sejam eles como forem. E nisto começou a chorar tão deveras, como se já visse morta e enterrada a Sanchita. Sancho consolou-a, dizendo-lhe que, ainda que tivesse de a fazer condessa, a faria o mais tarde possível. Assim acabou a prática, e Sancho foi ter com D. Quixote, para darem ordem à sua partida.
Capítulo VI — Do que passou D. Quixote com a sua sobrinha e a sua ama, capítulo dos mais importantes desta história toda
"...— Olha, amiga minha — respondeu D. Quixote — nem todos os cavaleiros podem ser cortesãos, nem todos os cortesãos podem nem devem ser cavaleiros: de tudo tem de haver no mundo; cavaleiros todos somos, mas vai muita diferença de uns a outros; porque os cortesãos, sem sair dos seus aposentos, nem dos umbrais da corte, passeiam por todo o mundo, olhando para um mapa, sem lhes custar mealha, nem padecer calor, nem frio, nem fome, nem sede;
mas nós outros, os cavaleiros andantes verdadeiros, ao sol, ao frio, ao ar, às inclemências do céu, de noite e de dia, a pé e a cavalo, lustramos toda a terra; e não conhecemos só os inimigos pintados, conhecemo-los no seu próprio ser, e a todo o transe e em todas as ocasiões os acometemos, sem olhar a ninharias nem a leis de desafios, se tem ou não tem mais curta a lança ou a espada, se traz consigo relíquias ou algum engano encoberto, como outras cerimónias deste jaez, que se usam nos desafios particulares, que tu não sabes e eu sei; e o bom cavaleiro andante, ainda que veja dez gigantes, que com as cabeças não só toquem nas nuvens, mas passem para cima delas, e que a cada um lhe sirvam de pernas duas enormes torres, e que os braços semelhem mastros de grandes e alterosos navios, com cada olho como uma grande roda de moinho e mais ardente que um forno de vidraça, não tem por isso que se espantar; antes com gentil porte e intrépido coração os deve acometer e investir; e, se for possível, vencê-los e desbaratá-los num breve momento, ainda que venham armados de umas conchas que dizem que são mais duras que os diamantes, e em vez de espadas tragam cutelos de aço damasquino, ou cacetes ferrados com ponteiras de aço também, como eu vi mais de duas vezes.. ... "...A este tempo bateram à porta, e, perguntando-se quem era, respondeu Sancho Pança; apenas a ama o conheceu, tratou de se ir embora, para o não ver, tal era o ódio que lhe votara. Foi abrir a sobrinha, saiu a recebê-lo de braços abertos seu amo D. Quixote, e encerraram-se ambos no seu aposento, onde tiveram outro colóquio, não menos interessante que o anterior."
Capítulo VII — Do que passou D. Quixote com o seu escudeiro, e outros sucessos famosíssimos
"...se, com estas esperanças e adiantamentos, quiseres, Sancho, tornar a servir-me, seja em muito boa hora, que lá tirar eu dos seus termos e dos seus eixos a antiga usança da cavalaria andante, nunca o farei:
assim, pois, meu Sancho, volta para casa, e declara à tua Teresa a minha intenção, e se ela quiser, e tu quiseres também, bene quidem, e se não quiserem, amigos como dantes, que se no pombal houver milho, pombas não faltarão, e repara, filho, que mais vale esperança boa que pensão ruim, e boa queixa que mau pago. Falo deste modo, Sancho, para te dar a entender que também eu sei, como tu, despejar uma saraivada de rifões. Finalmente, digo que se não queres vir à mercê, e correr a mesma sorte, Deus seja contigo e te faça um santo, que me não faltarão escudeiros mais obedientes, mais solícitos e menos faladores e empachados do que tu. "...Enfim, naqueles três dias, D. Quixote e Sancho muniram-se de tudo o que lhes conveio, e, tendo Sancho aplacado sua mulher, e D. Quixote sua sobrinha e sua ama, ao anoitecer, sem que ninguém os visse, a não ser o bacharel, que os acompanhou a meia légua do lugar, puseram-se a caminho de Toboso — D. Quixote montado no seu bom Rocinante, e Sancho no seu antigo ruço, com os alforjes providos de coisas tocantes à bucólica, e a bolsa de dinheiros que D. Quixote lhe deu para o que necessário fosse. Abraçou-o Sansão, e suplicou-lhe que lhe comunicasse a boa ou má sorte que tivesse, para se alegrar com uma e entristecer-se com outra, como pediam as leis da boa amizade. Prometeu-lho D. Quixote; voltou Sansão para a sua terra, e ambos tomaram o caminho da grande cidade de Toboso.
Capítulo VIII — Onde se conta o qne sucedeu a D. Quixote, indo ver a sua dama Dulcineia del Toboso
"...Ficaram sós D. Quixote e Sancho, e, apenas Sansão se apartou, começou a relinchar o Rocinante e a suspirar o ruço, coincidência que, tanto pelo cavaleiro como pelo escudeiro, foi tida por bom sinal, ainda que, se se há-de contar a verdade, mais foram os suspiros e os zurros do ruço, do que os relinchos do rocim, donde coligiu Sancho que a sua ventura havia de sobrepujar e passar para cima da de seu senhor, fundando-se não sei se na astrologia judiciária que ele sabia, posto que a história o não declare;..."
"...— Sancho amigo, a noite vai entrando rápida e escura, quando nós precisávamos de chegar de dia a Toboso, aonde resolvi, antes de começar novas aventuras, ir tomar a bênção e a licença da sem par Dulcineia, com a qual tenho por certo que hei-de acabar felizmente com todos os perigosos lances, porque nada há nesta vida que faça mais valentes os cavaleiros andantes, do que o verem-se favorecidos pelas suas damas."
"...Nestas e noutras práticas se passou a noite e o dia seguinte, sem lhes acontecer coisa digna de se contar, com bastante pena de D. Quixote. Enfim, no outro dia, ao anoitecer, descobriram a grande cidade de Toboso, e com essa vista se alegrou o espírito de D. Quixote, e se entristeceu o de Sancho, porque não sabia onde era a casa de Dulcineia, nem nunca a vira em toda a sua vida, e seu amo também não; de modo que, um por ir vê-la, e o outro por não a ter visto, estavam alvoroçados, e Sancho não imaginava o que havia de fazer quando seu amo o enviasse a Toboso. Finalmente, determinou D. Quixote entrar de noite na cidade, e enquanto não eram horas pousaram num carvalhal, próximo de Toboso, e chegada a ocasião própria entraram na cidade, onde lhes sucederam coisas dignas de menção.
Capítulo IX — Onde se conta o que nele se verá
"Era meia-noite, pouco mais ou menos, quando D. Quixote e Sancho saíram do monte e entraram em Toboso. Estava o povo em sossegado silêncio, porque todos os seus vizinhos dormiam e repousavam de perna estendida, como se costuma dizer. A noite não era muito clara, mas desejaria Sancho que fosse escuríssima, para achar nas trevas uma desculpa para a sua ignorância. Não se ouviam em todo o lugar senão ladridos de cães, que ensurdeciam D. Quixote e turbavam Sancho. De quando em quando zurrava um jumento, miavam gatos, grunhiam porcos; esses sons pareciam ampliar-se com o silêncio da noite, e tudo isso considerou como de mau agouro o enamorado cavaleiro, ..." "...— Senhor — respondeu o moço — eu sou forasteiro, e há poucos dias que estou nesta povoação, servindo na lavra dos campos um rico fazendeiro; mas nessa casa, aí defronte, vivem o cura e o sacristão da freguesia, e qualquer deles saberá dar a Vossa Mercê notícia dessa senhora princesa, porque têm a lista de todos os vizinhos de Toboso, ainda que eu estou em dizer que em todo o lugar não vive princesa alguma, a não querer chamar assim a muitas senhoras principais, que cada uma delas é princesa em sua casa...."
Capítulo X — Onde se conta a indústria que Sancho teve para encantar a senhora Dulcineia, e outros sucessos tão ridículos como verdadeiros
"...— Pois o que eu te digo, Sancho — tornou D. Quixote — é que é tão verdade o serem burricos ou burricas, como ser eu D. Quixote e tu Sancho Pança. Pelo menos assim me parecem.— Cale-se, senhor — tornou Sancho — não diga semelhante coisa; vamos, esfregue esses olhos, e venha cortejar a dama dos seus pensamentos, que já vem aqui ao pé. E, dizendo isto, adiantou-se para receber as três aldeãs, e, apeando-se do ruço, agarrou no cabresto do jumento de uma das três lavradeiras, e, pondo o joelho em terra, disse:— Rainha, princesa e duquesa da formosura, seja Vossa Altivez servida de receber com boa graça e boa vontade o vosso cativo cavaleiro, que está ali feito de mármore, todo turbado e sem pulso, por se ver na vossa magnífica presença; eu sou Sancho Pança, seu escudeiro, e ele o afamado cavaleiro D. Quixote de la Mancha, conhecido pelo nome de Cavaleiro da Triste Figura.
"...Afastou-se Sancho e deixou-a ir, contentíssimo por se ter saído bem do seu enredo. Apenas se viu livre a aldeã, que havia representado, sem o saber, o papel de Dulcineia, picou o seu palafrém com um aguilhão, e deitou a correr pelo campo fora; e, como a burrica sentia a ponta do aguilhão, que a picava mais que de costume, começou aos corcovos e aos pulos, de forma que deu com a senhora Dulcineia em terra. Vendo isto, D. Quixote correu a levantá-la, e Sancho a compor e apertar a albarda, que se tinha virado para a barriga da burra. Arranjada a albarda, e querendo D. Quixote levantar a sua encantada senhora nos braços, para a pôr em cima da jumenta, ela, erguendo-se logo, tirou-lhe esse trabalho, porque deu uma corrida, e, pondo as mãos ambas nas ancas da burra, saltou, mais ligeira que um falcão, para cima da albarda e ficou escarranchada como se fosse homem. ...."
"...Muito custava ao socarrão do Sancho disfarçar o riso, ao ouvir as sandices de seu amo, tão finamente enganado. Depois de outras muitas razões que houve entre eles ambos, tornaram a montar nas cavalgaduras e seguiram caminho de Saragoça, aonde cuidavam chegar a tempo de se poderem achar numas festas solenes, que todos os anos se costumam fazer naquela insigne cidade; mas, antes de lá chegarem, sucederam-lhes coisas, que, por serem grandes, muitas e novas, merecem ser escritas e lidas como adiante se verá.
Capítulo XI — Da estranha aventura que sucedeu a D. Quixote com o carro ou carreta das cortes da morte
"..., mas estorvou-lho uma carreta que se atravessou no caminho, cheia das pessoas e figuras mais estranhas e diversas que imaginar-se podem. O que guiava as mulas e servia de carreiro era um feio demónio. A carreta era descoberta, sem toldo. A primeira figura que D. Quixote viu foi a da própria morte, com rosto humano; junto dela vinha um anjo com grandes e pintadas asas; dum lado estava um imperador, com uma coroa, que parecia de ouro, na cabeça; aos pés da morte vinha o deus que chamam Cupido;"
"... mas logo D. Quixote se alegrou, julgando que se lhe oferecia nova e perigosa aventura; e com este pensamento e ânimo, disposto a acometer qualquer perigo, pôs-se diante da carreta, e disse em voz alta e ameaçadora:— Carreiro, ou cocheiro ou diabo, diz-me já quem és, para onde vais, e quem é essa gente que levas no teu coche, que mais parece a barca de Caronte, do que uma carreta destas que no mundo se usam. O diabo, fazendo parar a carreta, respondeu mansamente:— Senhor, somos comediantes da companhia de Angulo, o mau; representamos naquele lugar que fica além, por trás da serra, esta manhã, por ser oitava do Corpo de Deus, o auto das Cortes da morte, e havemos de o representar esta tarde naquela outra aldeia que daqui se avista;"
"...Estando-se nesta palestra, quis a sorte que viesse um da companhia, vestido de truão com muitos guizos, trazendo na ponta dum pau três bexigas cheias de ar, e, chegando-se a D. Quixote, começou a esgrimir o pau, a bater com as bexigas no chão, e a dar muitos saltos, fazendo tilintar os guizos; esta visão tanto sobressaltou Rocinante, que, sem D. Quixote o poder suster, tomou o freio nos dentes, e partiu de corrida pelos campos fora, com mais ligeireza do que nunca o prometeram os ossos da sua anatomia. Sancho, que viu o perigo em que estava seu amo de ser deitado ao chão, apeou-se do ruço e foi a toda a pressa acudir-lhe, mas quando chegou ao pé dele já o encontrou estirado, juntamente com o cavalo, que era este o fim habitual das louçanias e atrevimentos de Rocinante. Mas, apenas Sancho se apeou, o demónio do bailador das bexigas saltou para cima do ruço, fustigando-o com elas. O medo e a bulha, mais do que a dor das pancadas, fizeram voar o burro pela campina até ao lugar onde iam fazer a festa. Olhava Sancho para a corrida do seu jumento e para a queda de D. Quixote, e não sabia para onde se havia de virar; ...."
Capítulo XII — Da estranha aventura que sucedeu a D. Quixote com o bravo cavaleiro dos espelhos
"...Nestas e noutras práticas passaram grande parte da noite, e Sancho teve vontade de cerrar as janelas dos olhos, como ele dizia quando queria dormir, e, desaparelhando o ruço, deu-lhe pasto abundante e livre. Não tirou a sela a Rocinante, por ser ordem expressa de seu amo, que, enquanto andassem em campanha, ou não dormissem debaixo de telha, não desaparelhasse Rocinante, usança antiga estabelecida e guardada pelos cavaleiros andantes. Tirar o freio e pendurá-lo do arção da sela, muito bem, mas tirar a sela ao cavalo, nunca; assim fez Sancho e deu-lhe a mesma liberdade que ao ruço."
"...mas pouco tempo passara, quando o despertou um ruído, que sentiu por trás de si, e levantando-se com sobressalto, pôs-se a mirar e a escutar donde vinha o som, e viu que eram dois homens a cavalo, e que um, deixando-se cair da sela, disse para o outro:— Apeia-te, amigo, e tira os freios aos cavalos, que me parece que neste sítio abunda pasto para eles, e para mim a solidão e o silêncio de que precisam os meus amorosos pensamentos. Dizer isto e estender-se no chão foi uma e a mesma coisa e, ao deitar-se, fizeram bulha as armas de que vinha vestido, manifesto sinal por onde D. Quixote conheceu que era cavaleiro andante;"
"...— Quem está aí? que gente é? pertence ao número dos contentes ou dos aflitos?— Dos aflitos — respondeu D. Quixote.— Pois chegue-se a mim — redarguiu o da Selva — e pode fazer de conta que se chega à própria tristeza e à própria aflição...Nisto se apartaram os dois escudeiros, entre os quais houve colóquio tão gracioso, como foi grave o que travaram os amos."
Capítulo XIII — Onde prossegue a aventura do cavaleiro da Selva, com o discreto, novo e suave colóquio que houve entre os dois escudeiros
"Estavam separados cavaleiros e escudeiros: estes contando a sua vida, e aqueles, os seus amores; mas a história refere primeiro a palestra dos criados e logo segue com a dos amos; e assim nota que, apartando-se um pouco, disse o da Selva a Sancho: — Trabalhosa vida é a que passamos e vivemos, senhor meu, os que somos escudeiros de cavaleiros andantes; pode-se dizer, na verdade, que comemos o pão ganho com o suor do nosso rosto, que foi uma das maldições que Deus deitou aos nossos primeiros pais. — Também se pode dizer — acrescentou Sancho — que o comemos com o gelo dos nossos corpos, porque, quem é que tem mais calor e mais frio do que os míseros escudeiros da cavalaria andante? E ainda não era mau se comêssemos, pois que lágrimas com pão passageiras são; mas às vezes passam-se dois dias sem nós quebrarmos o jejum, a não ser com o vento que sopra."
"...E, levantando-se, voltou daí a pedaço com uma grande borracha de vinho, e uma empada de meia vara....E dizendo isto, pôs a borracha na mão de Sancho, que, empinando-a e pondo-a à boca, esteve contemplando as estrelas um bom quarto de hora; quando acabou de beber, deixou cair a cabeça para o lado, e, dando um grande suspiro,...Enfim, tanto falaram e tanto beberam os bons dos escudeiros, que foi preciso que o sono lhes atasse as línguas, e lhes acalmasse a sede, que lá matar-lha era impossível, e assim, segurando ambos abraçada a borracha quase vazia, com os bocados meio mastigados na boca, adormeceram, e a dormir os deixaremos por agora, para contar o que o cavaleiro da Selva passou com o da Triste Figura"
Capítulo XIV — Onde prossegue a aventura do cavaleiro da Selva
"...foram aonde estavam os seus escudeiros, e encontraram-nos a ressonar, na mesma posição em que os surpreendera o sono. Acordaram-nos e ordenaram-lhes que aprontassem os cavalos, que, assim que rompesse o sol, haviam de travar os dois cavaleiros uma sangrenta e singular batalha....Mas, apenas a claridade do dia permitiu ver e diferençar as coisas, a primeira que deu na vista a Sancho Pança foi o nariz do escudeiro da Selva, tamanho, que fazia sombra a todo o corpo. Conta-se que, efetivamente, era de demasiada grandeza, recurvado no meio, todo cheio de verrugas, e a modo cor de berinjela;"
"...Enquanto D. Quixote se demorava a ajudar Sancho a trepar à árvore, tomou o dos Espelhos o campo que lhe pareceu necessário;... Com esta nunca vista fúria, chegou ao sítio onde estava o dos Espelhos cravando no seu cavalo as esporas todas, sem conseguir, ainda assim, arrancá-lo do sítio em que estacara. Nesta excelente conjuntura achou D. Quixote o seu contrário, embaraçado com o cavalo e tão atrapalhado com a lança, que não conseguiu pôr em riste, ou por falta de jeito ou por falta de tempo. D. Quixote, que não atendia a estes inconvenientes, a são e salvo esbarrou no dos Espelhos, com tão estranha força, que o atirou do cavalo abaixo pelas ancas, dando tal queda, que ficou estendido, sem mover mão nem pé, e dando todos os sinais de que morrera." "...— Veja Vossa Mercê o que faz, senhor D. Quixote, que esse que aí tem a seus pés é o bacharel Sansão Carrasco, seu amigo, e eu sou o seu escudeiro. E Sancho, vendo-o sem a sua primitiva fealdade, disse-lhe: — E o nariz? Ao que ele respondeu: — Aqui o tenho na algibeira. E tirou da algibeira direita um nariz postiço de pasta; e Sancho, olhando para ele cada vez mais pasmado, exclamou em alta voz:— Valha-me Santa Maria! Este não é Tomé Cecial, meu vizinho e meu bom compadre?
Capítulo XV — Onde se conta e dá notícia de quem era o cavaleiro dos Espelhos e o seu escudeiro
"...— Temos decerto, senhor Sansão Carrasco, o que merecemos; com facilidade se pensa e se acomete uma empresa, mas com dificuldade se sai a gente dela, pela maior parte das vezes. D. Quixote é doido e nós somos ajuizados; ele vai-se indo, são e salvo; Vossa Mercê fica moído e triste. Saibamos, pois, agora, quem é mais doido: quem o é porque se não conhece, ou quem o é por sua vontade? ..."
"...Nisto foram arrazoando os dois, até que chegaram a um povo, onde felizmente encontraram um curandeiro, que tratou o desgraçado Sansão. Tomé Cecial voltou para casa e deixou-o, e o bacharel ficou imaginando a sua vingança, e a história a seu tempo volta a falar nele, para não deixar agora de se regozijar com D. Quixote...."
Capítulo XVI — Do que sucedeu a D. Quixote com um discreto cavaleiro da Mancha
"Com a alegria, contentamento e ufania que se disse, seguiu D. Quixote a sua jornada, imaginando, pela passada vitória, ser o cavaleiro andante mais valente que tinha o mundo naquele tempo; dava por acabadas e levadas a bom termo quantas aventuras lhe pudessem suceder daí por diante; ..."
"...Nestas razões estavam, quando os alcançou um homem, que vinha atrás deles pelo mesmo caminho, montado numa formosa égua baia, com um gabão de fino pano verde, com bandas de veludo leonado, e trazendo na cabeça um gorro do mesmo veludo;...Sofreou as rédeas o caminhante, admirando-se da figura e fisionomia de D. Quixote, que ia sem elmo, levando-lho Sancho, como se fosse mala, no arção dianteiro da albarda do ruço;...Esteve Sancho a escutar atentíssimo a relação da vida e entretenimentos do fidalgo; e entendendo que homem de tão boa e santa existência devia fazer milagres, saltou do burro abaixo e com muita pressa foi-lhe agarrar no estribo direito, e com devoto coração e quase lágrimas lhe beijou os pés uma e muitas vezes. ...."
Capítulo XVII — Onde se declara o último ponto a que chegou e podia chegar o inaudito ânimo de D. Quixote, com a aventura dos leões, tão felizmente acabada
"...Nisto, chegou o carro das bandeiras, em que vinha só o carreiro montado numa das mulas e um homem sentado na dianteira do carro. D. Quixote atravessou-se-lhes na frente e disse: — Aonde ides, irmãos? que carro é este? o que levais nele? e que bandeiras são estas? — O carro é meu — respondeu o carreiro — o que vai dentro dele são dois bravos leões engaiolados, que o governador de Orã envia à corte, de presente a Sua Majestade; as bandeiras são de El-Rei nosso senhor, em sinal de que vai aqui coisa sua...."
"....— Leões a mim? — disse D. Quixote com leve sorriso — leões a mim e a tais horas? pois, por Deus, hão-de ver esses senhores que cá os mandam, se me arreceio de leões. Apeai-vos, bom homem e, visto que sois o guarda, abri essas jaulas e largai-me estas feras, que, no meio deste campo, lhes mostrarei quem é D Quixote de la Mancha, a despeito e apesar dos nigromantes que mos enviam...."
"Quereria opor-se-lhe, até pela força, o do Verde Gabão; mas viu-se desigual em armas, e não lhe pareceu grande cordura travar peleja com um doido, que já assim lhe parecera D. Quixote, o qual, tornando a apressar o guarda e a reiterar as ameaças, deu ocasião a que o fidalgo picasse a égua e Sancho o ruço, e o carreiro as mulas, procurando todos afastar-se do carro o mais depressa possível, antes que os leões se desembestassem...No espaço que se demorou o guarda a abrir a primeira jaula, esteve considerando D. Quixote se não seria melhor dar batalha a pé do que a cavalo, e por fim resolveu dá-la a pé, receando que Rocinante se espantasse com a vista dos leões; por isso, saltou do cavalo abaixo, arrojou a lança, embraçou o escudo e, desembainhando a espada, foi a passos contados, com maravilhoso denodo e ânimo valente, colocar-se diante do carro, encomendando-se a Deus de todo o coração, e logo depois à sua senhora Dulcineia... Até aqui chegou o extremo da sua nunca vista loucura; mas o generoso leão, mais comedido do que arrogante, não fazendo caso de ninharias nem de bravatas, depois de olhar para um e para outro lado, voltou os quartos traseiros para D. Quixote, e com grande fleuma e remanso tornou a deitar-se na jaula; vendo isto, D. Quixote ordenou ao guarda que o irritasse com pauladas, para o fazer sair. — Isso não faço eu — respondeu o guarda — porque, se o instigo, o primeiro a quem despedaça é a mim. Vossa Mercê, senhor cavaleiro, contente-se com o que praticou, que é o mais que se pode dizer em género de valentia, e não queira tentar fortuna segunda vez;...
Capítulo XVIII — Do que sucedeu a D. Quixote no castelo ou casa do cavaleiro do Verde Gabão, com outras coisas extravagantes
"A casa de D. Diogo de Miranda era vasta, como são sempre as casas da aldeia, com armas esculpidas por cima da porta da rua; a adega era no pátio, e havia muitos cântaros que, por serem de Toboso, acordaram em D. Quixote a memória da encantada e transformada Dulcineia;..."
"Ó cântaros tobosinos, que me trouxestes à memória a doce prenda da minha maior amargura! Ouviu-lhe dizer isto o estudante poeta, filho de D. Diogo, que com sua mãe saíra a recebê-lo, e mãe e filho ficaram suspensos de ver a estranha figura de D. Quixote, que, apeando-se de Rocinante, se dirigiu com muita cortesia à dona da casa a pedir-lhe as mãos para lhas beijar,..." "...Com isto, foi D. Lourenço entreter D. Quixote, como já se disse, e entre outras práticas que os dois tiveram, disse D. Quixote para D. Lourenço: — O senhor D. Diogo de Miranda, pai de Vossa Mercê, deu-me notícia da rara habilidade e sutil engenho que Vossa Mercê tem; e, sobretudo, de que é um grande poeta. — Poeta pode ser — respondeu D. Lourenço — mas grande nem por pensamentos: é verdade que sou um pouco afeiçoado à poesia e a ler os bons autores; mas não se me pode dar o epíteto de grande...." "...Levantada a mesa, dadas graças a Deus, e água às mãos, D. Quixote pediu afincadamente a D. Lourenço que dissesse os versos da justa literária;...e, ao despedir-se, disse D. Quixote a D. Lourenço: — Não sei se lembrei já a Vossa Mercê, e se lembrei, torno-o a lembrar que, quando Vossa Mercê quiser poupar caminhos e trabalhos para chegar ao inacessível cume do templo da Fama, não tem mais que fazer senão deixar de parte a senda da poesia, um pouco estreita, e tomar a estreitíssima da cavalaria andante, que basta para o elevar a imperador, enquanto o diabo esfrega um olho."
Capítulo XIX — Onde se conta a aventura do pastor enamorado, com outros sucessos na verdade graciosos
"Pouco se afastara D. Quixote da aldeia de D. Diogo, quando se encontrou com dois estudantes e dois lavradores, que vinham todos quatro montados em jumentos. Um dos estudantes trazia em feitio de mala um lenço de bocaxim, em que embrulhara uma pouca de roupa branca e dois pares de meias de burel negro: o outro, só duas espadas pretas de esgrima, emboladas. Os lavradores levavam para a sua aldeia vários objetos, que davam indício e sinal de virem de alguma grande povoação, onde os tinham comprado;..."
"...— Não há-de ser assim — acudiu D. Quixote — que eu quero ser mestre desta esgrima e juiz desta questão, há muito tempo pendente. E apeando-se de Rocinante e agarrando na lança, pôs-se no meio do caminho, quando já o licenciado, com gentil donaire de corpo, e em posição de esgrima, ia contra Corchuelo, que veio para ele, lançando, como se diz, chamas pelos olhos. Os outros dois lavradores que iam na companhia, sem se apearem dos jericos serviam de espectadores da mortal tragédia. As estocadas e cutiladas de Corchuelo eram inúmeras; pareciam um granizo de golpes. Arremetia como um leão furioso, mas saía-lhe ao encontro o licenciado com a ponta embolada do florete, fazendo-lha beijar como se fosse relíquia, porém com menos devoção." "...Finalmente, o licenciado contou-lhe a estocadas todos os botões da batina que trazia vestida, fazendo-lhe em tiras o pano; tirou-lhe o chapéu duas vezes e cansou-o de forma que o bacharel, de despeito, cólera e raiva, agarrou na espada pelos copos e atirou-a para longe com tanta fúria, que a arrojou a três quartos de légua, como afirmou depois um dos lavradores assistentes que a foi buscar. ... E, levantando-se, abraçou o licenciado e ficaram ainda mais amigos do que dantes, e não quiseram esperar o lavrador que tinha ido à busca da espada, por lhes parecer que se demoraria muito, e resolveram seguir o seu caminho, para chegarem cedo à aldeia de Quitéria, donde todos eram...." "...Os músicos eram os que deviam regozijar a boda, que andavam em diversas quadrilhas por aquele agradável sítio, uns bailando, outros cantando e outros tocando a variedade dos referidos instrumentos....Não quis entrar na aldeia D. Quixote, apesar de lho pedirem, tanto o lavrador como o bacharel; mas deu por desculpa, no seu entender mais que bastante, ser costume dos cavaleiros andantes dormirem nos campos e florestas, antes que nos povoados, ainda que fosse debaixo de áureos tetos;..."
Capítulo XX — Onde se contam as bodas de Camacho, o rico, e o sucesso de Basílio, o pobre
"Apenas a branca Aurora dera lugar a que o lúcido Febo, com o ardor dos seus quentes raios, enxugasse as líquidas pérolas dos seus cabelos de ouro, D. Quixote, sacudindo o torpor dos seus membros, pôs-se a pé e chamou o seu escudeiro Sancho, que ainda ressonava, e, antes de o despertar...A nada disto respondeu Sancho, porque dormia; nem tão cedo despertaria, se D. Quixote com o conto da lança o não acordasse. Espertou, enfim, sonolento e pesaroso e, voltando o rosto para todos os lados, disse: — De acolá daquela ramada, se me não engano, sai um cheiro mais de torresmos que de juncos e de tomilhos; bodas que por tais cheiros começam, benza-me Deus, que me parece que hão-de ser fartas e generosas."
"...Para tudo Sancho Pança olhava, e afeiçoava-se a tudo. Primeiro renderam-no e cativaram-lhe o desejo as olhas de que ele tomaria uma malga de muito bom grado; depois prenderam-lhe a vontade os odres; e ultimamente as massas e doces; afinal, sem poder mais, chegou-se a um dos solícitos cozinheiros e, com razões corteses e famintas, rogou-lhe que lhe deixasse molhar um pedaço de pão numa daquelas olhas. — Irmão — respondeu-lhe o cozinheiro — neste dia, graças ao opulento Camacho, não tem a fome jurisdição; apeai-vos, vede se há por aí uma concha, escumai uma ou duas galinhas, e que vos faça muito bom proveito. — Não vejo nenhuma — respondeu Sancho. — Esperai! — tornou o cozinheiro — mal pecado! que melindroso e acanhado que vós sois! E, dizendo isto, agarrou numa caçarola e, metendo-a numa das tinas, tirou para fora três galinhas e dois patos, e disse para Sancho: — Aqui tendes, amigo, e almoçai, enquanto não chega hora de jantar...."
"... Finalmente, depois de ter dançado um grande espaço, o Interesse tirou uma bolsa, feita da pele de um enorme gato romano, que parecia estar cheia de dinheiro, e arrojando-a ao castelo, desconjuntaram-se as tábuas com o golpe e caíram, deixando a donzela sem defesa alguma. ...."
E logo principiou a enredar-se com os outros companheiros em tantas voltas, e com tanta destreza que, ainda que D. Quixote estava acostumado a ver semelhantes danças, nenhuma lhe parecera tão bem como aquela. Também lhe agradou outra, que entrou, de donzelas formosíssimas, de catorze a dezoito anos, todas vestidas de uma fazenda verde, com os cabelos em parte entrançados, e em parte soltos, mas todos tão loiros, que podiam competir com os raios do sol, e engrinaldados de jasmins, rosas, amaranto e madressilva. Guiava-as um velho venerável e uma matrona anciã: mas mais ligeiros e desembaraçados do que prometiam os seus anos. Ao som de uma gaita de Zamora, dançavam, mostrando-se as melhores bailarinas do mundo, com a ligeireza nos pés e a honestidade nos olhos.
"E, dizendo isto, principiou de novo a dar assalto à caçarola, com tamanho apetite, que despertou o de D. Quixote, o qual sem dúvida o ajudaria, se o não impedisse o que é forçoso que adiante se diga."
Capítulo XXI — Em que prosseguem as bodas de Camacho, com outros saborosos sucessos
"...ouviram-se grandes brados e grande ruído, originados pelos das éguas que, em grande carreira e com grande algazarra, iam receber os noivos, os quais, rodeados de mil géneros de invenções, vinham acompanhados pelo cura e pela parentela, e por toda a gente mais luzida dos lugares circunvizinhos, todos vestidos de gala...."
"...Iam-se aproximando dum teatro, que estava para um lado do campo, adornado de alfombras e ramos, onde se haviam de celebrar os esponsais, e donde haviam de ver as danças e as invenções. Quando eles chegavam a esse sítio, ouviram de repente por trás de si muitas vozes, e uma que dizia: — Esperai um pouco, gentes inconsideradas e pressurosas. .... quando mais se aproximava conheceram todos que era o galhardo Basílio, e ficaram suspensos, esperando em que viriam a dar as suas vozes e as suas palavras, receando que tivesse mau resultado a sua vinda nessa ocasião." "...Dizendo isto, arrancou do cajado que encravara no chão, e de dentro dele desembainhou um curto estoque, nesse cajado oculto; e encostando ao solo o que se podiam chamar os copos, com leve desenfado e resoluto propósito arrojou-se para cima dele, e num momento lhe saiu pelas costas metade da lâmina afiada e ensangüentada, ficando o triste banhado em sangue e estendido no chão, traspassado pelas suas próprias armas...."
"...Estando, pois, de mãos dadas Basílio e Quitéria, o cura, comovido e choroso, deitou-lhes a bênção, e pediu ao céu que salvasse a alma do novo esposo, o qual, assim que recebeu a bênção, com grande ligeireza se pôs de pé, e com pasmosa desenvoltura arrancou o estoque, a que o seu corpo servia de bainha. ..."
"... e assim como na guerra é coisa lícita e costumada usar de ardis e estratagemas para vencer o inimigo, também nas contendas e competências amorosas se não estranham os embustes, que se põem por obra para conseguir o fim a que se aspira, contanto que não seja em menoscabo e desabono do objeto amado. Quitéria pertencia a Basílio e Basílio a Quitéria, por justa e favorável disposição do céu. Camacho é rico, e poderá comprar o seu gosto onde, como e quando quiser." "...e tão intensamente se fixou na imaginação de Camacho o desdém de Quitéria, que num instante lha apagou da memória, e assim se rendeu às persuasões do cura, varão prudente e bem intencionado, ficando assim Camacho e os da sua parcialidade pacíficos e sossegados, e embainharam as espadas, culpando mais a facilidade de Quitéria do que a indústria de Basílio, discorrendo Camacho que, se Quitéria em solteira amava Basílio, continuaria a amá-lo depois de casada, e que devia dar graças ao céu, mais por lha ter tirado do que por lha ter dado. ...Levaram consigo D. Quixote, considerando-o homem de valor. Só a Sancho se lhe escureceu a alma, por se ver impossibilitado de aguardar o jantar esplêndido e as festas de Camacho, que duraram até à noite; e assim, macambúzio e triste, seguiu seu amo, que ia com os companheiros de Basílio, ... e assim acabrunhado e pensativo, mas sem fome, seguiu, sem se apear do ruço, as pisadas de Rocinante."
Capítulo XXII — Onde se dá conta da grande aventura da Gruta de Montesinos, que está no coração da Mancha, e a que pôs feliz termo o valoroso D. Quixote
"Grandes e muitos foram os regalos com que os noivos serviram a D. Quixote, obrigados pelas demonstrações que ele fizera para defender a sua causa, e, a par da valentia, gabaram-lhe a discrição, tendo-o por um Cid nas armas e por um Cícero na eloquência. O bom Sancho refocilou-se três dias à custa dos noivos, dos quais se soube que não foi traça combinada com a formosa Quitéria o ferir-se fingidamente Basílio, mas sim indústria deste, esperando o feliz resultado que se vira;..."
"Finalmente, estiveram três dias em casa dos noivos, onde foram amimados e servidos como reis. Pediu D. Quixote ao destro licenciado que lhe desse um guia que o encaminhasse à Gruta de Montesinos, porque tinha grandes desejos de penetrar dentro e de ver com os seus olhos se eram verdadeiras as maravilhas que a esse respeito se referiam por todos aqueles contornos...Selou Sancho Rocinante, aparelhou o ruço, recheou os alforjes, o mesmo fez o primo do licenciado, e, encomendando-se a Deus e despedindo-se de todos, tomaram o rumo da famosa Gruta de Montesinos."
"...e à noite albergaram-se numa pequena aldeia, onde o primo do licenciado disse a D. Quixote que dali à gruta de Montesinos eram só duas léguas, e que, se estava resolvido a entrar lá dentro, se fornecesse de cordas para se amarrar e engolfar-se na sua profundidade. D. Quixote disse que, ainda que chegasse ao abismo, havia de ver aonde ia ter, e assim compraram quase cem braças de corda, e no dia seguinte, às duas da tarde, chegaram à caverna, cuja boca é espaçosa e larga, mas cheia de urzes, de tojos e de sarças e silvas, tão espessas e intrincadas, que de todo em todo a cegam e encobrem...."
"...E, dizendo isto, acercou-se da gruta e, vendo que era impossível abrir caminho, a não ser à força de braços e à cutilada, desembainhando a espada, começou a derribar e a cortar as silvas que estavam na boca da caverna, a cujo ruído e estrondo saíram da espessura grande número de corvos e de gralhas, tão densos e apressados, que atiraram com D. Quixote ao meio do chão," "...Finalmente, levantou-se, e, vendo que não saíam mais corvos, nem outras aves noturnas, como morcegos, que vieram entre os corvos, dando-lhe corda o primo do licenciado e Sancho, deixaram-no deslizar para o fundo da espantosa caverna,..."
"...Mas D. Quixote não respondia palavra, e, tirando-o de todo para fora, viram que trazia os olhos fechados, parecendo adormecido. Estenderam-no no chão e desligaram-no; e, com tudo isso, não despertava. Mas tanto o viraram e reviraram, tanto o sacudiram e menearam, que, ao cabo de muito tempo, voltou a si, espreguiçando-se, como se despertasse de grande e profundo sono; e olhando para todas as partes, como espantado,..." "...Pediu que lhe dessem alguma coisa de comer, que trazia muitíssima fome. Estenderam o xairel do jumento do guia sobre a verde relva, foram à dispensa dos alforjes, e, sentados todos três em boa companhia, merendaram e cearam ao mesmo tempo...."
Capítulo XXIII — Das admiráveis coisas que o extremado D. Quixote contou que vira na profunda Gruta de Montesinos, coisas que, pela impossibilidade e grandeza, fazem que se considere apócrifa esta aventura
"Seriam quatro horas da tarde, quando o sol, encoberto e entre nuvens, com escassa luz e temperados raios permitiu a D. Quixote contar, sem calor nem incómodo, aos seus dois claríssimos ouvintes, o que vira na Gruta de Montesinos;..."
"...Vem comigo, claríssimo senhor, que te quero mostrar as maravilhas solapadas neste transparente alcáçar, de que eu sou alcaide e guarda-mor perpétuo, porque sou o próprio Montesinos, que dá nome à gruta. Apenas ele me disse que era Montesinos, logo lhe perguntei se era verdade o que no mundo cá de cima se contava, que ele tirara, com uma pequena adaga, o coração do seu grande amigo Durandarte, para o levar à senhora Belerma, como Durandarte ordenara quando morrera. Respondeu-me que em tudo diziam verdade, e que a adaga era buída e agudíssima...."
"...introduziu-me no cristalino palácio, onde, numa sala baixa e fresquíssima, havia um sepulcro de mármore, fabricado com grande primor, sobre o qual vi um cavaleiro estendido em todo o seu comprimento, não de bronze, nem de mármore, nem de jaspe, como os costuma haver nos nossos sepulcros, mas de carne e osso....— É este o meu amigo Durandarte, flor e espelho dos cavaleiros enamorados e valentes do seu tempo. Tem-no aqui encantado, como me tem a mim e a muitos outros e outras, Merlin, aquele nigromante francês,...."
"...Ouviram-se nisto grandes alaridos e prantos, acompanhados de profundos suspiros e angustiados soluços. Voltei a cabeça, e pelas paredes de cristal vi que passava por outra sala uma procissão de duas fileiras de formosíssimas donzelas, todas vestidas de luto, com turbantes brancos ao modo turco. No coice da procissão vinha uma senhora, grave e vestida de preto, com touca branca tão estendida e larga que beijava o chão....Disse-me Montesinos que toda aquela gente eram servidores de Durandarte e de Belerma, que estavam encantados com os seus amos, e que a última, que trazia o coração no lenço e nas mãos, era a senhora que fazia Belerma, quatro dias por semana aquela procissão com as suas damas, cantando, ou, para melhor dizer, chorando endechas sobre o corpo e sobre o coração de seu primo;...— Podia muito bem ser, Sancho — replicou D. Quixote — mas não foi, porque o que contei vi-o com os meus olhos e toquei-o com as minhas mãos. Mas que dirás tu em eu te referindo que entre outras mil coisas e maravilhas que Montesinos me mostrou (que devagar e a seu tempo te irei contando no decurso da nossa viagem), me apresentou três lavradeiras, que por aqueles ameníssimos campos brincavam e pulavam como cabras, e, apenas as vi, conheci logo que uma delas era a incomparável Dulcineia, e que as outras duas eram as lavradeiras que vinham com ela e a quem falamos à saída do Toboso? Perguntei a Montesinos se as conhecia; respondeu-me que não, mas que supunha que seriam algumas damas principais encantadas, que havia poucos dias que tinham aparecido naqueles prados; e que me não espantasse disso, porque ali estavam muitas outras damas das eras passadas e presentes, encantadas em diferentes e estranhas figuras, entre as quais conhecia ele a rainha Ginevra e a sua dona Quintanhona, que deitara vinho a Lançarote, na sua volta da Bretanha."
Capítulo XXIV — Onde se contam mil trapalhadas, tão impertinentes como necessárias ao verdadeiro entendimento desta grande história
"...Nisto, saíram da ermida e seguiram para a venda, e daí a pedaço toparam um rapazito, que ia caminhando adiante deles, mas sem grande pressa, e por isso logo o apanharam. Levava a espada ao ombro, e suspensa da espada uma trouxa, que provavelmente havia de ser do fato, porque vestia só roupas muito ligeiras, mas as meias eram de seda e os sapatos quadrados à moda da corte. ..."
"... — Senhor — tornou o mancebo — levo nesta trouxa uns calções de veludo; se os gasto, não me posso honrar com eles na cidade, e não tenho dinheiro para comprar outros; e tanto por isso, como para me arejar, vou desta maneira, até alcançar umas companhias de infantaria, que estão a umas doze léguas daqui; nessas companhias assentarei praça, e não faltarão mulas de bagagens que me levem até ao sítio do embarque, que dizem que há-de ser em Cartagena; antes quero servir na guerra El-Rei, e tê-lo por amo e senhor, do que a qualquer figurão da corte. ..." "...e Sancho, entretanto, dizia de si para si: — Valha-te Deus, que pode; como é que um homem que sabe tais, tantas e tão boas coisas como as que acaba de proferir, afirma também que viu os impossíveis disparates que conta da Gruta de Montesinos? Ele o dirá...."
Capítulo XXV — Onde se conta a aventura dos zurros, e o gracioso caso do homem dos fantoches, com as memoráveis adivinhações do macaco
"...Não descansou D. Quixote enquanto não pôde ouvir e saber as maravilhas prometidas pelo almocreve das armas. Foi-o buscar ao sítio onde o vendeiro lhe dissera que ele estava; encontrou-o e instou-o para que lhe dissesse logo o que lhe havia de dizer depois, acerca do que lhe perguntara no caminho...— Saberão Vossas Mercês que num lugar que fica a quatro léguas e meia desta venda sucedeu que a um regedor, por indústria e engano duma rapariga sua criada (e isto são contos largos), lhe faltou um burro; e, apesar de o tal regedor fazer as possíveis diligências para o encontrar, não o conseguiu. Teriam passado quinze dias, segundo é pública voz e fama, quando uma vez, estando ele na praça, outro regedor do mesmo povo lhe disse:... — Ide vós por um lado e eu por outro, de modo que rodeemos todo o monte, e de espaço a espaço zurrareis vós e zurrarei eu, e, se o jumento por cá estiver, decerto nos ouve e nos responde...Mas como havia de responder o pobre e malogrado animal, se o encontraram no sítio mais recôndito do monte, comido por lobos? ."
"... quando entrou pela porta da venda um homem todo vestido de camurça, meias, calções e gibão, e disse em voz alta: — Senhor hospedeiro, há pousada? vem aqui o macaco adivinho e o retábulo da liberdade de Melisendra....Perguntou D. Quixote ao vendeiro que mestre Pedro era aquele, e que retábulo e que macaco trazia. — É um famoso mostrador de fantoches — respondeu o vendeiro — que há muitos dias que anda por esta Mancha do Aragão, mostrando um retábulo da liberdade de Melisendra, dada pelo famoso D. Gaifeiros, que é uma das melhores e mais bem representadas histórias que há muitos anos a esta parte se tem visto neste reino; traz também consigo um macaco, da mais rara habilidade que se viu em macacos ou se imaginou em homens; porque, se lhe perguntam alguma coisa, está com muita atenção e logo em seguida salta para os ombros de seu amo, e chegando-se-lhe ao ouvido lhe diz a resposta do que lhe perguntam, e mestre Pedro declara-a imediatamente; e das coisas passadas diz muito mais que das futuras, e, ainda que nem sempre em todas acerta, a maior parte das vezes não erra, de forma que nos faz crer que tem o diabo no corpo ...."
"... e por agora basta, e vamos ver o retábulo do bom mestre Pedro, que imagino que deve ter alguma novidade. — Alguma? — respondeu mestre Pedro — sessenta mil encerra este meu retábulo: digo-lhe a Vossa Mercê, senhor D. Quixote, que é uma das coisas mais dignas de se verem que há hoje no mundo: operibus credite et non verbis, e mãos à obra, que se faz tarde; temos muito que fazer, que dizer e que mostrar. Obedeceram-lhe D. Quixote e Sancho, e foram aonde estava o retábulo posto e descoberto, cheio por todos os lados de velinhas de cera, acesas, que o faziam vistoso e resplandecente. Mestre Pedro, que era quem havia de mexer as figuras, meteu-se para dentro, e ficou de fora um rapaz seu criado, para servir de intérprete e revelador dos mistérios do retábulo; tinha uma varinha na mão, com que apontava para as figuras que iam saindo. Reunidas, pois, todas as pessoas que estavam na venda, algumas de pé, defronte do retábulo, e sentados D. Quixote, Sancho, o pajem e o guia nos melhores lugares, o trugimão começou a dizer o que ouvirá ou verá quem ouvir ou ler o capítulo seguinte.
Capítulo XXVI — Onde continua a graciosa aventura do homem dos fantoches, com outras coisas na verdade boníssimas
"...Vede, porém, como o piedoso céu vale sempre aos aflitos, pois chega D. Gaifeiros, e sem lhe importar que a saia riquíssima se rasgue, puxa por Melisendra, escarrancha-a como um homem nas ancas do cavalo, monta ele também e diz-lhe que o enlace com força nos braços para não cair, porque a senhora Melisendra não estava costumada a semelhantes cavalarias. Vede também como os relinchos do cavalo dão sinal de que vai contente com a valente e formosa carga do seu senhor e da sua senhora. Vede como saem da cidade, e alegres e satisfeitos tomam o caminho de Paris..— Não faltaram olhos ociosos, que tudo costumam ver e que deram pela descida de Melisendra, participando o caso ao rei Marsílio, que mandou logo tocar a rebate; e vejam com que pressa ressoam por toda a cidade os sinos de todas as torres das mesquitas.— Isso não — acudiu D. Quixote — lá nos sinos anda com muita impropriedade mestre Pedro, porque entre mouros não se usam, usam-se atabales e um gênero de doçainas que parecem as nossas charamelas; e o tocarem sinos em Sansueña é sem dúvida um grande disparate..."
"...E, dizendo e fazendo, desembainhou a espada, num momento se aproximou do retábulo e, com acelerada e nunca vista fúria, começou a descarregar cutiladas sobre a mourisma titereira, derribando uns, descabeçando outros, estropiando este, destroçando aquele e, entre muitas outras, atirou uma cutilada de alto a baixo, que, se mestre Pedro se não encolhe e acachapa, cerceava-lhe a cabeça, com mais facilidade do que se fosse de maçapão.
Gritava mestre Pedro, dizendo: — Detenha-se Vossa Mercê, senhor D. Quixote, e advirta que esses que derriba, destroça e mata, não são verdadeiros mouros. Mas nem por isso D. Quixote deixava de amiudar as cutiladas, talhos e reveses, que pareciam uma saraivada. Finalmente, em menos de dois credos, deu com todo o retábulo no chão, com todas as figuras e pertences escavacados, o rei Marsílio mal ferido e o imperador Carlos Magno com a coroa partida e a cabeça rachada de meio a meio. Alvorotou-se o senado dos ouvintes, fugiu para os telhados da venda o macaco; assustou-se o guia, acobardou-se o pajem e o próprio Sancho Pança teve grandíssimo pavor, porque, como jurou depois de passada a borrasca, nunca vira seu amo com tão desatinada cólera. ..." "...Enfim, acabou a borrasca do retábulo, e todos cearam em paz e boa companhia, à custa de D. Quixote, que era liberal em extremo. Antes de amanhecer, foi-se embora o que levava as lanças e as alabardas, e, já depois de manhã clara, vieram despedir-se de D. Quixote o primo do licenciado e o pajem — aquele para voltar para a sua terra, e este para seguir o seu caminho; e para o ajudar, deu-lhe D. Quixote uma dúzia de reais. Mestre Pedro não quis mais dares e tomares com D. Quixote, que ele conhecia perfeitamente; e assim, madrugou antes do sol, e, juntando o macaco e as relíquias do seu retábulo, partiu também à cata de aventuras. O vendeiro, que não conhecia D. Quixote, estava tão pasmado com as suas loucuras como com a sua liberalidade. Finalmente, Sancho pagou-lhe à larga, por ordem de seu amo e, despedindo-se dele, saíram da venda quase às oito horas da manhã e puseram-se a caminho. ...
Capítulo XXVII — Onde se dá conta de quem eram mestre Pedro e o seu macaco, e também do mau resultado que tirou D. Quixote da aventura do zurro, a que não pôs o termo que desejava e pensava
"...Até que ao terceiro dia, ao subir uma encosta,... Desceu o outeiro e acercou-se do esquadrão, até ver distintamente as bandeiras, e as cores, e as empresas, especialmente uma de cetim branco, em que se pintara ao vivo um burro, de cabeça levantada, boca aberta, língua de fora, como se estivesse a zurrar; ao redor liam-se, escritos em letras grandes, estes dois versos: Não ornearam em vão, os alcaides da questão. Por esta insígnia entendeu D. Quixote que aquela gente era o povo do zurro, ... Disse-lhe também que o homem, que lhes contara aquele caso, enganara-se quando afirmara que tinham sido regedores os que zurraram, ao passo que os versos do estandarte mostravam que tinham sido alcaides...."
"...— Há dias que soube da vossa desgraça e da causa que vos move a pegar em armas, para vos vingardes dos vossos inimigos; e, tendo pensado maduramente no vosso negócio, entendo, segundo as leis do duelo, que andais erradamente, supondo-vos afrontados, porque nenhum particular pode afrontar um povo inteiro, senão arrojando a todos juntos o epíteto de traidores, por não saber qual deles foi que cometeu a traição....Portanto, meus senhores, Vossas Mercês são obrigados, pelas leis divinas e humanas, a desistir da luta."
"...E, apertando o nariz com a mão, começou a zurrar com tamanho estrondo, que retumbaram todos os vales dos arredores; mas um dos que estavam ali ao pé, julgando que ele os chasqueava, levantou um varapau que tinha na mão e arrumou-lhe tamanha bordoada, que deu com Sancho Pança em terra. D. Quixote, que viu Sancho tão mal parado, arremeteu ao que lhe batera, mas foram tantos os que se meteram no meio, que não foi possível vingá-lo; antes, vendo que chovia sobre ele uma nuvem de pedras, e que o ameaçavam mil bestas retesadas, e não menor quantidade de arcabuzes, voltou as rédeas a Rocinante e a todo o galope saiu do meio deles, encomendando-se de todo o coração a Deus, para que o livrasse de tamanho perigo, temendo a cada passo que lhe entrasse uma bala pelas costas e lhe saísse pelo peito, e a cada momento tomava a respiração para ver se lhe faltava; mas os do esquadrão contentaram-se com vê-lo fugir sem lhe atirarem. A Sancho, apenas tornou a si, puseram-no em cima do jumento, e deixaram-no ir atrás de seu amo, não que ele tivesse tino para o guiar, mas o ruço seguiu, como de costume, as pisadas de Rocinante...."
Capítulo XXVIII — Das coisas que diz Benengeli, que saberá quem as ler, se as ler com atenção
"Quando o valente foge, é que está descoberta a cilada; e os varões prudentes devem guardar-se para melhor ocasião. Afirmou-se essa verdade com D. Quixote, que, largando o campo à fúria do povo e às más tenções daquele indignado esquadrão, pôs os pés em polvorosa e, sem se lembrar de Sancho, nem do perigo em que o deixava, apartou-se o espaço que lhe pareceu bastante para se ver em segurança. Seguia-o Sancho, atravessado em cima do jumento, como fica referido...."
"...Nisto meteram-se na alameda, e D. Quixote acomodou-se ao pé de um olmo, e Sancho ao pé de uma faia. Sancho passou a noite penosamente, porque as dores das pancadas faziam-se sentir mais com o sereno. D. Quixote passou-a embebido nas suas contínuas memórias; mas, com tudo isso, veio o sono fechar-lhe os olhos, e ao romper de alva seguiram o seu caminho, procurando as margens do famoso Ebro, onde lhes sucedeu o que se contará no próximo capítulo."
Capítulo XXIX — Da famosa aventura do barco encantado
"...Caminhando, pois, deste modo, ofereceu-se-lhe à vista uma pequena barca, sem remos nem velas, que estava amarrada na praia a um tronco de uma árvore. Olhou D. Quixote para todos os lados e não viu pessoa alguma, e logo sem mais nem menos apeou-se de Rocinante, e mandou a Sancho que fizesse o mesmo ao ruço, e que a ambos os animais os amarrasse, muito bem amarrados, ao tronco de um álamo ou salgueiro que ali estava...quero advertir a Vossa Mercê que me parece que este barco não é dos encantados, mas de alguns pescadores deste rio, porque nele se pescam as melhores bogas do mundo.... Isto dizia Sancho, enquanto prendia os animais,... E, dando um pulo para dentro dele, e seguindo-o Sancho, cortou a corda, e o barco foi-se apartando a pouco e pouco da praia;..."
"...E, sacudindo os dedos, lavou a mão toda no rio, por onde sossegadamente deslizava o barco, seguindo a corrente, sem que o impelisse inteligência alguma secreta, ou qualquer nigromante escondido, a não ser o próprio correr da água, então brando e suave. Nisto, descobriram umas grandes azenhas, que estavam no meio do rio, e apenas D. Quixote as viu, bradou em alta voz para Sancho: — Vês amigo, ali se descobre a cidade, castelo ou fortaleza, onde deve de estar algum cavaleiro oprimido, ou alguma rainha, infanta, ou princesa mal parada, para socorrer a qual aqui sou chamado. — Que diabo de cidade, fortaleza, ou castelo diz Vossa Mercê? — perguntou Sancho — pois não vê claramente que aquilo são azenhas, que estão no rio, onde se mói o trigo?...."
"...E, pondo-se em pé no barco, principiou a ameaçar com grandes brados os moleiros,...E, dizendo isto, deitou mão à espada, e começou-a a esgrimir no ar contra os moleiros, os quais, ouvindo e não entendendo semelhantes sandices, puseram-se com as suas varas a desviar o barco, que já ia entrando no redemoinho formado pelas rodas. Pôs-se Sancho de joelhos, pedindo devotamente ao céu que o livrasse de tão manifesto perigo, como efetivamente o livrou pela indústria e presteza dos moleiros que, opondo-se com as suas varas ao andamento do barco, o detiveram, mas não de modo que não virassem o batel, dando com D. Quixote e com Sancho na água; serviu de muito a D. Quixote o saber nadar como um pato, ainda que o peso das armas por duas vezes o levou ao fundo; mas, se não fossem os moleiros, que se deitaram à água e os salvaram a ambos, ali, para eles, teria sido Tróia.
Capítulo XXX — Do que sucedeu a D. Quixote com uma bela caçadora
"...Sucedeu, pois, que no outro dia, ao pôr do sol e ao sair de uma selva, espraiou D. Quixote a vista por uma verde campina, e lá ao fim viu gente, e, aproximando-se, conheceu que eram caçadores de altanaria. Chegou-se mais, e viu entre eles uma galharda senhora, montada num palafrém, ou hacanéia branquíssima, com arreios verdes e uma cadeirinha de prata. Vinha a esbelta dama vestida de verde, tão bizarra e opulentamente, que parecia a personalização da própria bizarria...."
"...Nisto, chegou D. Quixote, e, dando mostras de querer apear-se, acudiu Sancho a segurar-lhe no estribo; mas, com tanta desgraça, que, ao saltar, embrulhou-se-lhe um pé de tal modo numa das silhas da albarda, que não lhe foi possível desenredá-lo, e ficou pendurado, com a boca e o peito no chão. D. Quixote, que não costumava apear-se sem lhe segurarem no estribo, supondo que Sancho estava já no seu posto, largou o corpo de golpe, e levou consigo a sela de Rocinante, que por força estava mal apertada, e ele e a sela caíram ao chão, não sem grande vergonha sua e sem muitas maldições, que atirou por entre dentes ao desditoso Sancho, que ainda estava com o pé preso...."
"...— Venha, pois, o senhor cavaleiro dos Leões — prosseguiu o duque — a um castelo meu, que está aqui próximo, onde se lhe fará o acolhimento que a tão excelsa pessoa justamente se deve, e o que eu e a duquesa costumamos fazer a todos os cavaleiros andantes que ali chegam. Entretanto, já Sancho arranjara e apertara bem a sela a Rocinante, em que montou D. Quixote; e, montando o duque num formoso cavalo, puseram a duquesa no meio, e encaminharam-se para o castelo. Ordenou a duquesa a Sancho que fosse junto dela, porque gostava imenso de ouvir os seus ditos. Não se fez rogar Sancho; meteu-se entre os três, e fez de parceiro na conversação, com grande gosto do duque e da duquesa, que tiveram por alta ventura o acolher no seu castelo tal cavaleiro andante e tal escudeiro falante.
Capítulo XXXI — Que trata de muitas e grandes coisas
"...Antes de chegarem à casa de recreio ou castelo, adiantou-se o duque e deu ondens aos seus criados acerca do modo como haviam de tratar D. Quixote, de forma que, assim que este chegou com a duquesa à porta do castelo, saíram dois lacaios ou palafreneiros, vestidos até aos pés com umas roupas de arrastar, de finíssimo cetim carmesim...— Seja bem-vinda a flor e a nata dos cavaleiros andantes. E todos, ou a maior parte, derramavam águas odoríferas sobre D. Quixote, e foi aquele o primeiro dia em que de todo conheceu e acreditou que era verdadeiro cavaleiro andante, e não fantástico, vendo que o tratavam do mesmo modo por que ele vira que se tratavam os tais cavaleiros nos séculos passados."
"...A duquesa e o duque saíram à porta da sala a recebê-lo, e com eles um grave eclesiástico, destes que governam as casas dos príncipes; destes que querem que a grandeza dos nobres se meça pela estreiteza dos seus ânimos; destes que, querendo ensinar aos que eles governam a ser limitados, os fazem ser miseráveis. Um desses tais devia ser o grave religioso, que saiu com os duques a receber D. Quixote. Trocaram-se mil corteses cumprimentos, e finalmente, pondo D. Quixote no meio, foram para a mesa. Convidou o duque a D. Quixote para que se sentasse à cabeceira; e, ainda que ele o recusou, foram tais as instâncias do duque, que não teve remédio senão aceitar, enfim...." "..O eclesiástico, que ouviu falar em gigantes, em malandrinos e em encantamentos, percebeu que aquele devia de ser D. Quixote de la Mancha, cuja história o duque tinha costume de ler, coisa que ele por muitas vezes lhe censurara, dizendo-lhe que era disparate ler tais despautérios;.
Capítulo XXXII — Da resposta que deu D. Quixote ao seu repreensor, com outros graves e graciosos sucessos
"Erguido, pois, D. Quixote, tremendo desde os pés até à cabeça, com azougada, pressurosa e turva língua, disse:— O lugar onde estou, a presença de tão excelsas pessoas e o respeito que sempre tive e tenho ao estado que Vossa Mercê professa, atam-me as mãos ao justíssimo enfado; e assim, tanto pelo que disse, como por saberem todos que as armas dos que vestem sotainas são, como as das mulheres, a língua, entrarei, servindo-me da minha, em igual batalha com Vossa Mercê, de quem se deviam esperar antes bons conselhos do que infames vitupérios. As repreensões santas e bem intencionadas requerem outras circunstâncias e pedem outros assuntos; pelo menos, o repreender-me em público e tão asperamente, excedeu todos os limites da censura cordata;"
"...Estavam neste ponto do seu colóquio o duque, a duquesa e D. Quixote, quando ouviram muitos brados e grande rumor de gente, e entrou Sancho de corrida na sala, com uma rodilha atada ao pescoço, e atrás dele muitos bichos de cozinha, e outra criadagem miúda, um dos quais trazia um caldeirão de água, que, pela cor e pouca limpeza, mostrava ser de lavar a louça. Perseguia-o este, procurando pôr-lhe o caldeirão debaixo das barbas, ao passo que outro mostrava querer-lhas lavar. — Que é isso, irmãos? — perguntou a duquesa — que quereis a esse bom homem? pois não considerais que está nomeado governador? — Este senhor não se quer deixar lavar — respondeu o improvisado barbeiro — como é costume, e como se lavou o senhor duque, e o amo do senhor Sancho. — Quero, sim — respondeu Sancho com muita cólera — mas desejaria que fosse com toalhas mais limpas e água mais clara, e com mãos menos sujas, que não há tanta diferença entre mim e meu amo, que a ele o lavem com água de anjos e a mim com a barrela do diabo....Com isto acabou a prática, e D. Quixote foi dormir a sesta; e a duquesa pediu a Sancho que, se não tivesse muita vontade de dormir, viesse passar a tarde com ela e com as suas donzelas numa fresquíssima sala...."
Capítulo XXXIII — Da saborosa prática que a duquesa e as suas donzelas tiveram com Sancho Pança, digna de que se leia e que se note
"...Sancho não dormiu aquela sesta, mas que, para cumprir a sua palavra, veio, logo depois de jantar, ter com a duquesa, a qual, pelo muito que gostava de o ouvir, o fez sentar ao pé de si numa cadeira baixa, ainda que Sancho, por delicadeza, não queria sentar-se; mas a duquesa disse-lhe que se sentasse como governador e falasse como escudeiro, pois que por ambas as coisas merecia até o escanho do Cid Rui Diaz Campeador.."
"...De novo Sancho beijou as mãos à duquesa e lhe pediu que lhe fizesse mercê de cuidar do seu ruço, porque era o lume dos seus olhos. — Que ruço vem a ser? — perguntou a duquesa. — O meu burro — tornou Sancho — que por não o chamar por este nome, lhe costumo chamar o ruço; e a esta senhora dona pedi, quando entrei neste castelo, que tomasse conta dele, e vai ela toda se arrenegou, como se eu lhe tivesse chamado feia ou velha, devendo ser contudo, parece-me, mais próprio das donas pensar os jumentos do que honrar as salas. Valha-me Deus! que mal se dava com estas senhoras um fidalgo da minha terra!"
"— Seria algum vilão — acudiu a dona Rodríguez — que se ele fosse fidalgo e bem-nascido, havia de as pôr nos cornos da lua. — Ora bem — disse a duquesa — acabou-se! cale-se, dona Rodríguez; sossegue, senhor Pança, e fique a meu cargo o tratamento do ruço, que, por ser alfaia de Sancho, eu o porei nas meninas dos meus olhos...."
Capítulo XXXIV — Que dá conta da notícia que se teve de como se havia de desencantar a incomparável Dulcinéia del Toboso, que é uma das aventuras mais famosas deste livro
"... mas, o que mais pasmava a duquesa era a simplicidade de Sancho, que chegara a acreditar que Dulcinéia del Toboso estava encantada, tendo sido ele mesmo o nigromante e o inventor daquele negócio; e assim, ordenando aos seus criados tudo o que haviam de fazer, dali a seis dias levaram-nos a uma caça de montaria, com tanto séquito de monteiros e caçadores, como poderia ter um rei coroado. Deram a D. Quixote um fato de monte e a Sancho outro de finíssimo pano verde; mas D. Quixote não quis vestir o seu, dizendo que dentro em pouco teria de voltar ao duro exercício das armas e que não podia levar consigo guarda-roupa; Sancho recebeu o que lhe deram, com tenção de o vender na primeira ocasião que pudesse...repartida a gente pelos diferentes postos, se começou a caçada com grande estrondo, grita e vozearia, de forma que se não podiam ouvir uns aos outros, tanto pelo ladrido dos cães, como pelo som das buzinas..."
"E, apenas tinham posto o pé no chão, e formado alas com muitos criados, viram que vinha para eles, acossado pelos cães e seguido pelos caçadores, um desmedido javali, rangendo dentes e colmilhos, e deitando espuma pela boca;...Só o nosso Sancho é que, apenas viu o valente animal, desamparou o ruço e largou a correr o mais que pôde e, procurando subir a um alto carvalho, não o conseguiu; antes, quando chegou ao meio, agarrado a um ramo, tentando trepar ao cimo da árvore, tão desgraçado foi, que se partiu o ramo e Sancho caiu; mas antes de desabar no chão, ficou pendurado de um galho"
"e, vendo-se assim, sentindo que se lhe rasgava o saio verde, e parecendo-lhe que, se a fera se chegasse para ali, o poderia apanhar, começou a dar tamanhos gritos e a pedir socorro com voz tão aflita, que todos que o ouviam e não o viam supunham que estava nos dentes de algum bicho. Finalmente, o cerdoso javali ficou atravessado pelos ferros de muitos venábulos, e D. Quixote, voltando a cabeça, aos gritos de Sancho, deu com ele pendurado do carvalho, de cabeça para baixo, e ao pé o ruço, que o não desamparou na sua calamidade;...Chegou-se D. Quixote e despendurou Sancho, o qual, vendo-se livre e no chão, olhou para o seu esfarrapado saio e sentiu grande pesar, porque imaginara que aquele fato seria para ele um morgado. " "...Nisto cerrou-se mais a noite e principiaram a correr pelo bosque muitas luzes, como correm pelo céu as exalações da terra, que parecem à nossa vista estrelas cadentes. Ouviu-se logo também um espantoso ruído, como aquele que produzem as rodas maciças dos carros de bois, de cujo chiar áspero e continuado se diz que fogem os lobos e os ursos, se os há nos sítios por onde passam. Acrescentou-se a toda esta tempestade outra muito maior, e foi o parecer verdadeiramente que nos quatro cantos do bosque se estavam dando ao mesmo tempo quatro recontros ou batalhas, porque ali soava o duro estrondo de espantosa artilharia; acolá, disparavam-se infinitas escopetas; mais perto, soavam as vozes dos combatentes; ao longe, reiteravam-se os clamores agarenos; finalmente, as cornetas, as trompas, as buzinas, os clarins, as trombetas, os tambores, a artilharia, os arcabuzes, e, sobretudo, o temeroso ruído dos carros, formavam, no seu conjunto, um som tão confuso e tão horrendo, que foi mister que D. Quixote se valesse de todo o seu ânimo..."
Capítulo XXXV — Onde prossegue a notícia que teve D. Quixote, do desencantamento de Dulcineia, com outros admiráveis sucessos
"...Ao compasso da agradável música, viram que para eles se encaminhava um carro, destes a que chamam triunfais, puxado por seis mulas pardas, cobertas de um pano branco, e montado em cada uma delas vinha um penitente, vestido também de branco e com um grande círio na mão. Era um carro duas vezes e ainda três vezes maior do que os anteriores, e aos lados e em cima dele vinham mais doze penitentes, alvos de neve, todos com os seus círios acesos, vista que inspirava a um tempo admiração e espanto;...Posta em pé esta morte viva, com voz um pouco sonolenta e língua não muito desperta, começou a dizer desta maneira: Eu sou Merlin, aquele que as histórias dizem que tem por pai o próprio diabo,..."
"....Para que Dulcineia del Toboso possa recuperar o antigo estado, deve o teu escudeiro Sancho Pança assentar nas suas largas pousadeiras, descobertas e ao ar, três mil açoites com suas próprias mãos, e mais trezentos...açoites que lhe doam bem deveras. ...— Voto a tal — acudiu logo Sancho — eu não dou em mim próprio, já não digo três mil açoites, mas nem três que são três. Diabos levem semelhante modo de desencantar: não sei que têm que ver as minhas pousadeiras com estes encantamentos. Pois se o senhor Merlin não achou outro modo de desencantar a senhora Dulcineia del Toboso, encantada pode ir para a sepultura. ..." "...— Muitos médicos há no mundo! — redarguiu Sancho — até o são os nigromantes! Mas já que todos insistem comigo, ainda que entendo que é grande tolice, não tenho remédio senão consentir em apanhar os três mil e trezentos açoites, com a condição de os poder dar eu em mim próprio, quando muito bem quiser, sem que me marquem a ocasião;...Apenas Sancho disse estas últimas palavras, voltou a tocar a música das charamelas, tornaram-se a disparar infinitos arcabuzes, e D. Quixote pendurou-se do pescoço de Sancho, dando-lhe mil beijos na testa e nas faces."
"...Vinha a romper a aurora alegre e ridente: as florinhas dos campos descerravam e erguiam a corola, e os líquidos cristais dos arroios, murmurando por entre brancos e pardos seixos, iam dar tributo aos rios que os esperavam; a terra alegre, lúcido o céu, o ar límpido, a luz transparente, cada um de per si e todos juntos davam manifestos sinais de que o dia, que vinha seguindo a aurora, havia de ser sereno e claro. E, satisfeitos os duques com a caça, e com o terem conseguido o seu intento tão discreta e felizmente, voltaram para o castelo com intenção de prosseguir nas suas patranhas, que não havia verdades que mais os divertissem."
Capítulo XXXVI — Onde se conta a estranha e nunca imaginada aventura de Dona Dolorida, aliás da condessa Trifaldi, com uma carta que Sancho Pança escreveu a sua mulher Teresa Pança "Tinha o duque um mordomo, de engenho alegre e desenfadado, que representou o papel de Merlin, arranjou todo o aparato da aventura passada, compôs os versos e incumbiu um pajem de fazer o papel de Dulcinéia. Finalmente, por ordem de seus amos, arranjou outra burla do mais estranho e gracioso artifício que imaginar-se pode. ..."
"...E, estando todos assim suspensos, viram entrar pelo jardim adiante dois homens vestidos de roupas lutuosas, que arrastavam pelo chão, e vinham tocando dois tambores também cobertos de negro. Ao seu lado vinha o pífaro, de negro também. Seguia-se a estes três um personagem de corpo agigantado, vestido com uma loba negríssima e de imensa cauda. Por cima da loba cingia-lhe o corpo um largo talim também negro, donde pendia um desmedido alfanje, de bainha e guarnições negras...— Há muitos dias já, bom escudeiro Trifaldino da barba branca, que temos notícia da desgraça da condessa Trifaldi, minha senhora, a quem os nigromantes fazem chamar a Dona Dolorida: bem podeis, estupendo escudeiro, dizer-lhe que entre, e que está aqui o valente cavaleiro D. Quixote de la Mancha...
— O que eu quereria, senhor duque — respondeu D. Quixote — é que estivesse aqui presente aquele bendito religioso, que no outro dia à mesa mostrou ter tão má vontade e tanto ódio aos cavaleiros andantes, para que visse com os seus olhos se os tais cavaleiros são ou não necessários no mundo...."
Capítulo XXXVII — Onde prossegue a famosa aventura da Dona Dolorida
"...O colóquio foi interrompido pelos tambores e o pífaro, que tornavam a tocar, o que lhes deu a entender que Dona Dolorida entrava....Nisto entraram os tambores e o pífaro, como da vez primeira. E aqui, neste breve capítulo, pôs ponto o autor, e principiou o outro, continuando com a mesma aventura, que é uma das mais notáveis desta história."
Capítulo XXXVIII — Onde se conta o que disse das suas desventuras a Dona Dolorida
"Atrás dos tristes músicos principiaram a entrar pelo jardim não menos de doze donas repartidas em duas fileiras, todas com largos vestidos negros, e uns véus brancos tão compridos, que só deixavam ver a fímbria do vestido...."
"...Vendo isto, o duque, a duquesa e D. Quixote adiantaram-se obra de doze passos a recebê-la. Ela, ajoelhada, com voz antes grossa e rouca do que sutil e delicada, disse: — Sejam servidos Vossas Senhorias de não fazer tantas cortesias a este seu criado, digo, a esta sua criada, porque tão dolorida sou, que não atinarei com o que devo responder,... e foi a Dona Dolorida, com estas palavras:— Confiada estou, senhor poderosíssimo, formosíssima senhora e discretíssimos circunstantes, em que há-de encontrar a minha angustiíssima em vossos valorosíssimos peitos acolhimento não menos plácido do que generoso e doloroso,.... — O Pança aqui está — acudiu logo Sancho — e D. Quixotíssimo também, e podereis, portanto, dolorosíssima doníssima, dizer o que quiserdíssimos, porque todos estamos prontos e preparadíssimos para ser vossos servidoríssimos....."
Capítulo XXXIX — Onde a Trifaldi prossegue na sua estupenda e memorável história
"...Feito isto, desembainhou um largo e desmedido alfanje, e, agarrando-me pelos cabelos, fez menção de me cercear a cabeça. Pegou-se-me a voz à garganta, fiquei o mais amofinada possível, mas apesar disso, fiz um esforço, e com voz trêmula e plangente lhe disse tantas e tais coisas, que suspenderam a execução de tão rigoroso castigo...."
"...E logo a Dolorida e as outras donas, levantando os véus que as tapavam, descobriram os rostos, cheios de barba, numas loura, noutras preta, noutras branca, e noutras de sal e pimenta; e, vendo isto, mostraram ficar admirados o duque e a duquesa, pasmados D. Quixote e Sancho, atônitos todos os circunstantes; e a Trifaldi prosseguiu: — Assim nos castigou aquele vilão e patife Malambruno, cobrindo os nossos macios e pálidos rostos com a aspereza destes cardos, e prouvera ao céu que antes nos tivesse cortado a cabeça com o seu alfanje, porque, se pensarmos, senhores meus (e o que vou agora dizer querê-lo-ia dizer banhada em lágrimas; mas a consideração da nossa desgraça, e os mares que os nossos olhos têm chovido, já as enxugaram de todo, e assim di-lo-ei sem pranto); digo, pois, aonde pode ir uma dona com barbas? que pai ou que mãe se compadecerá dela? quem a ajudará? pois, se ainda quando tem a tez lisa e o rosto martirizado com mil pinturas, mal encontra quem lhe queira bem, o que fará quando descobrir um rosto transformado em floresta? Ó donas e companheiras minhas, em desgraçada ocasião nascemos, em hora minguada nos geraram nossos pais! E, dizendo isto, fez menção de desmaiar."
Capítulo XL — Das coisas que dizem respeito a esta aventura e a esta memorável história
"...— Em mim não esteja a dúvida — respondeu D. Quixote; — dizei, senhora, o que tenho a fazer, que o ânimo está prontíssimo a servir-vos....Malambruno me disse que, quando a sorte me deparasse o cavaleiro nosso libertador, ele lhe enviaria uma cavalgadura muito melhor, e com menos manhas do que as de retorno, porque há-de ser o próprio cavalo de madeira, em que o valoroso Pedro levou roubada a formosa Magalona, cavalo que se governa por uma escaravelha, que tem na testa, e que lhe serve de freio e voa pelos ares com tanta ligeireza, que parece que o levam os próprios diabos...."
Este cavalo, segundo a tradição antiga, foi feito pelo sábio Merlin; emprestou-o a Pedro, que era seu amigo, e que fez com ele grandes viagens, e roubou, como já disse, a linda Magalona, levando-a nas ancas por esses ares fora, deixando aparvalhados todos os que da terra os contemplavam; e só o emprestava a quem ele queria ou lho pagava melhor ...Ó gigante Malambruno, que, apesar de seres nigromante, és certíssimo nas tuas promessas, envia-nos já o incomparável Clavilenho, para que se acabe esta desdita, que, se entra o calor e as nossas barbas ainda duram, ai da nossa ventura! A Trifaldi disse isto com tanto sentimento, que a todos os circunstantes arrancou lágrimas, e até arrasou de água os olhos de Sancho; e resolveu no seu coração acompanhar seu amo até às últimas partes do mundo, se daí resultasse o tirar a lã àqueles veneráveis rostos."
Capítulo XLI — Da vinda de Clavilenho, com o fim desta dilatada aventura
"...Eis que de repente entraram pelo jardim quatro selvagens, vestidos todos de verde hera, que traziam aos ombros um grande cavalo de madeira. Puseram-no no chão, e um dos selvagens disse: — Monte nesta máquina o cavaleiro, que para isso tiver ânimo...E se o cavaleiro tiver escudeiro, este que monte na garupa, e fie-se no valoroso Malambruno, que, a não ser pela sua espada, por nenhuma outra, nem por malícia alguma será ofendido; e basta só dar volta a esta escaravelha que traz no pescoço, e logo o cavalo os levará pelos ares ao sítio onde Malambruno os espera; mas para que a altura e sublimidade do caminho lhes não cause vágados, devem ir com os olhos tapados, até o cavalo rinchar, que é sinal de ter chegado ao termo da viagem. Dito isto, deixaram Clavilenho, e saíram, com gentil porte, pelo sítio por onde tinham vindo."
"...e assim, sem mais altercar, montou em Clavilenho, e tenteou-lhe a escaravelha, que se movia facilmente; e, como não tinha estribos, e era obrigado por isso a apertar bem o cavalo com as pernas, não parecia senão uma figura de tapeçaria flamenga, pintada ou tecida nalgum triunfo romano. Com má vontade e a pouco e pouco se foi chegando Sancho para montar a cavalo, e acomodando-se o melhor que pôde na garupa, achou-a dura, e pediu ao duque se lhe podia arranjar um coxim ou almofada,...e dizendo adeus a todos, deixou-se vendar os olhos, e já depois de vendados tornou-os a destapar, e, olhando para os circunstantes, ternamente e com lágrimas, disse que o ajudassem naquele transe com muitos padre-nossos e muitas ave-marias,...Nisto, aquentaram-lhes os rostos com umas estopas ligeiras, destas que se acendem e se apagam logo, penduradas de uma cana. Sancho, que sentiu o calor, bradou: — Que me matem, se não estamos no lugar do fogo, ou muito perto, porque já se me chamuscou uma grande parte da barba, e tenho vontade, senhor, de destapar os olhos e de ver em que sítio nos achamos."
"Todas estas práticas dos dois valentes eram ouvidas pelo duque e pela duquesa, e por todos os do jardim, que se divertiam com isso extraordinariamente; e querendo dar remate à estranha e bem fabricada aventura, pelo rabo de Clavilenho deitaram fogo com umas estopas a bombas e foguetes, de que o cavalo estava cheio, e o cavalo voou pelos ares com estranho ruído, e deu com D. Quixote e Sancho Pança no chão, meio chamuscados. A este tempo já desaparecera do jardim todo o barbado esquadrão das donas, e a Trifaldi e tudo, e os de casa estavam como que desmaiados e estendidos no chão. D. Quixote e Sancho levantaram-se bastante magoados, e olhando para todas as bandas, ficaram atónitos de se ver no mesmo jardim donde tinham partido, e de ver estendida no chão tanta gente..."
Capítulo XLII — Dos conselhos que deu D. Quixote a Sancho Pança, antes de ele ir governar a ilha, com outras coisas bem consideradas "Com o feliz e gracioso sucesso da aventura da Dolorida, ficaram tão satisfeitos os duques, que determinaram continuar com as burlas; e assim, tendo dado a traça e as ordens que os seus criados haviam de observar com Sancho no governo da ilha prometida, no dia imediato ao do vôo de Clavilenho, disse o duque a Sancho que se arranjasse e compusesse para ir ser governador, que já os seus insulanos o estavam esperando como às águas de Maio...."
"...Nisto, chegou D. Quixote, e, sabendo o que se passava, e a rapidez com que Sancho tinha de partir para o seu governo, com licença do duque tomou-o pela mão e levou-o para o seu quarto, com tenção de lhe aconselhar o modo como havia de proceder nesse ofício. Entrando, pois, no seu aposento, fechou a porta, e obrigou Sancho a sentar-se ao pé dele, e disse-lhe com voz pausada...Se estes preceitos e estas regras seguires, Sancho, serão longos os teus dias, eterna a tua fama, grandes os teus prémios, indizível a tua felicidade; casarás teus filhos como quiseres, terão títulos eles e os teus netos, viverás em paz e no beneplácito das gentes, e aos últimos passos da vida te alcançará a morte em velhice madura e suave, e fechar-te-ão os olhos as meigas e delicadas mãos de teus trinetos. O que até aqui te disse são documentos que devem adornar tua alma: escuta agora os que hão-de servir para adorno do corpo. "
Capítulo XLIII — Dos segundos conselhos que deu D. Quixote a Sancho Pança
"...Sancho escutava-o atentissimamente e procurava conservar na memória os seus conselhos, como quem tencionava segui-los e aproveitá-los no seu governo."
"...— Senhor — redarguiu Sancho — se Vossa Mercê entende que não sou capaz para este governo, já o largo, que eu quero mais a uma unha da minha alma do que a todo o meu corpo; e tão bem me sustentarei Sancho a seco com pão e cebolas, que como governador com perdizes e capões; e, além disso, enquanto se dorme todos são iguais; e repare, senhor meu amo, que quem me meteu nisto de governar foi Vossa Mercê, que eu lá de governos de ilhas nunca entendi nada; e, se acaso se persuade que por ser governador me há-de levar o diabo, antes quero ir Sancho para o céu, do que governador para o inferno. — Por Deus, Sancho — acudiu D. Quixote — só por essas últimas palavras que disseste, entendo que mereces ser governador de mil ilhas; boa índole tens, sem a qual não há ciência que valha; encomenda-te a Deus e procura não errar na primeira intenção; quero dizer, que tenhas sempre firme propósito de acertar em todos os negócios que te aparecerem, porque o céu favorece os bons desejos; e vamos jantar, que creio que esses senhores nos esperam."
Capítulo XLIV — De como Sancho Pança foi levado para o governo, e da estranha aventura que sucedeu no castelo a D. Quixote
"...No dia em que deu os conselhos a Sancho, tratou de lhos ir pôr em escritura, para que ele procurasse quem lhos lesse; mas, apenas lhos deu, caíram no chão e vieram parar às mãos do duque, que os mostrou à duquesa e ambos de novo se admiraram da loucura e do engenho de D. Quixote; e assim, levando por diante as suas burlas, naquela tarde mandaram Sancho com muito acompanhamento para a povoação, que havia de representar para ele o papel de ilha. Aquele que o levava a seu cargo era um mordomo do duque, ... e era o mesmo que representara o papel de condessa Trifaldi, com o donaire que se referiu. ... mas, assim que Sancho viu o tal mordomo, pareceu-lhe que o seu rosto era o mesmo que o da Trifaldi, e, voltando-se para seu amo, disse-lhe: — Senhor, ou a mim me há-de levar o diabo daqui donde estou, ou Vossa Mercê me há-de confessar que este mordomo é tal qual a Dolorida...."
"...Percebeu a duquesa a sua melancolia e perguntou-lhe por que motivo estava triste: que se era pela ausência de Sancho, havia em sua casa escudeiros, donas e donzelas com fartura, que o serviriam muito a seu sabor. — É certo, senhora minha — respondeu D. Quixote — que sinto a ausência de Sancho, mas não é essa a causa principal que por agora me entristece; e dos muitos oferecimentos que Vossa Excelência me fez, só aceito e agradeço o da boa vontade, e no mais peço a Vossa Excelência que dentro do meu aposento consinta e permita que eu só me sirva a mim próprio...."
"...Fechou a porta para si e, à luz de duas velas de cera, despiu-se e, ao descalçar-se, ó desgraça indigna duma pessoa como esta! soltaram-se-lhe duas dúzias de pontos duma meia, que ficou transformada em gelosia...Apagou a luz; o tempo estava quente e D. Quixote não podia dormir; levantou-se do leito, abriu um pouco a janela que deitava para um formoso jardim e, ao abri-la, sentiu que nesse jardim andava gente a falar...— Não digas isso, Altisidora amiga — respondeu outra voz; — decerto a duquesa e todas as pessoas de casa dormem, menos o senhor do teu coração e o despertador de tua alma, porque senti agora mesmo que abriu a janela do seu quarto e está sem dúvida acordada...E começou a tocar uma harpa suavissimamente. Ouvindo isto, ficou D. Quixote pasmado, porque logo naquele instante lhe acudiram à memória as infinitas aventuras, semelhantes àquela, de reixas e de jardins, músicas, requebros e desvanecimentos, que lera nos seus livros de cavalaria....e para fazer perceber que estava ali, deu um fingido espirro, com que muito se divertiram as donzelas, que não desejavam outra coisa senão que D. Quixote as ouvisse.."
"...Aqui deu fim o canto da malferida Altisidora e começou o assombro do requestado D. Quixote....E com isto fechou de golpe a janela, e despeitado e pressuroso, como se lhe houvesse acontecido alguma grande desgraça, deitou-se no seu leito, onde agora o deixaremos, porque nos está chamando o grande Sancho Pança ao seu famoso governo."
Capítulo XLV — De como Sancho Pança tomou posse da sua ilha, e do modo como principiou a governá-la
"...Com todo o seu acompanhamento, chegou Sancho a um lugar quase de mil vizinhos, que era dos melhores que o duque possuía. Disseram-lhe que se chamava a ilha Barataria, ou porque o lugar tinha o nome de Barataria, ou pela barateza com que se lhe dera o governo. Ao chegar às portas da vila, que era cercada de muros, saíram os alcaides do povo a recebê-lo, tocaram os sinos e todos os vizinhos deram mostras de geral alegria, e com muita pompa o levaram à igreja matriz a dar graças a Deus, e em seguida, com algumas ridículas cerimónias, lhe entregaram as chaves da vila e o admitiram como governador perpétuo da ilha Barataria. O trajo, as barbas, a gordura e a pequenez do novo governador traziam pasmados todos os que não sabiam o segredo do negócio e até aos que o sabiam, que eram muitos. ..."
"...Neste momento entraram no tribunal dois homens: um vestido de lavrador e o outro de alfaiate, porque trazia uma tesoura na mão; e o alfaiate disse...Ele imaginou, penso, que eu lhe queria furtar algum pedaço de pano, fundando-se talvez no seu mau costume e na má opinião que têm os alfaiates, e replicou-me que visse se chegaria para duas.... foi aumentando o número das carapuças, e eu respondendo sempre que sim, até que chegamos à conta de cinco, e agora acaba de as ir buscar; eu dou-lhas, não me quer pagar o feitio, e pelo contrário me pede que lhe pague ou lhe dê o pano...Mostrou cinco carapuças, postas nas cinco cabeças dos dedos da mão, e disse:— Aqui estão as cinco carapuças, que este homem me pede,...Sancho pôs-se a considerar um pouco, e disse:— Parece-me que neste pleito não deve haver largas dilações, mas julgar-se logo por juízo do homem bom; e assim, dou por sentença que o alfaiate perca o feitio, o lavrador o pano e se dêem as carapuças aos presos da cadeia, e acabou-se."
"..e os circunstantes ficaram admirados outra vez do juízo e das sentenças do seu novo governador. Tudo isto, notado pelo seu cronista, foi logo escrito ao duque, que com grande desejo o estava esperando; e fique-se por aqui o bom Sancho, que temos pressa de voltar a seu amo, alvoroçado com a música de Altisidora."
Capítulo XLVI — Da temerosa chuva de gatos barulhentos que recebeu D. Quixote, no decurso dos amores da enamorada Altisidora
"Deixamos o grande D. Quixote envolto nos pensamentos que lhe causara a música da enamorada donzela Altisidora. Com eles se deitou e, como se fossem pulgas, não o deixaram dormir nem sossegar um momento, juntando-se a isso o cuidado que lhe dava faltarem-lhe os pontos das meias...e ao passar por uma galeria encontrou a postos, e à sua espera, Altisidora e outra donzela sua amiga; e, assim que Altisidora viu D. Quixote, fingiu que desmaiava, e a amiga recebeu-a no colo e com grande presteza começou a desapertar-lhe o peito...
— Mande pôr um alaúde, esta noite, no meu aposento — respondeu D. Quixote — que eu consolarei, o melhor que puder, esta triste donzela; que nos princípios amorosos os desenganos prontos costumam ser remédios excelentes....Logo participaram à duquesa o que se passava e o pedido do alaúde que D. Quixote fizera, e ela, extremamente alegre, combinou com o duque e com Altisidora o fazerem-lhe uma burla que fosse mais alegre do que danosa,....Feito isto, e chegadas as onze horas da noite, encontrou D. Quixote uma viola no seu aposento; experimentou-a, abriu a reixa, sentiu que andava gente no jardim, e tendo apertado as escaravelhas da viola, e afinando-a o melhor que pôde, escarrou e aclarou o peito, e logo em seguida, com voz rouca, ainda que entoada, cantou..."
"...Aqui chegou D. Quixote com o seu canto, que estavam escutando o duque e a duquesa, Altisidora e quase toda a gente do castelo, quando de repente, duma varanda, que corria por cima da janela de D. Quixote, deixaram cair um cordel, a que vinham presas mais de cem campainhas, e logo em seguida despejaram um grande saco de gatos, que traziam também campainhas mais pequenas, presas aos rabos. Foi tal o barulho das campainhas e o miar dos gatos que, ainda que os duques tinham sido os inventores da caçoada, sobressaltaram-se e D. Quixote ficou temeroso e pasmado; e quis a sorte que dois ou três gatos entrassem no seu quarto e, correndo dum lado para o outro, parecia uma legião de diabos que por ali andava... Pôs-se D. Quixote em pé e, levando a mão à espada, começou a atirar estocadas pelas reixas e a dizer com grandes brados: — Fora, malignos nigromantes, fora, canalha feiticeiresca; ... E voltando-se para os gatos que andavam pelo aposento, atirou-lhes muitas cutiladas; acudiram à reixa, e por ali saíram; mas um, vendo-se tão acossado pelas cutiladas de D. Quixote, saltou-lhe à cara, agarrou-se-lhe ao nariz com unhas e dentes, e a dor obrigou D. Quixote a soltar grandes gritos... afinal, o duque arrancou-o e atirou-o pela janela. Ficou D. Quixote de cara escalavrada e com o nariz pouco são, mas muito despeitado por lhe não terem deixado pôr termo à batalha que travara com aquele malandrino nigromante....Os duques deixaram-no sossegar e foram-se ambos pesarosos do mau resultado da burla, porque não tinham suposto que saísse tão pesada e tão custosa a D. Quixote aquela aventura, que lhe rendeu cinco dias de cama e de encerramento, sucedendo-lhe então outra mais agradável que a anterior, ...."
Capítulo XLVII — Onde prossegue a narração do modo como se portava Sancho Pança no seu governo
"Conta a história que do tribunal levaram Sancho Pança para um sumptuoso palácio, onde estava posta, numa grande sala, uma mesa régia e asseadíssima; e, assim que Sancho entrou, tocaram as charamelas e vieram quatro pajens deitar-lhe água às mãos, o que Sancho recebeu com muita gravidade."
"Cessou a música e sentou-se Sancho à cabeceira da mesa. Pôs-se-lhe ao lado um personagem, que depois mostrou ser médico, de pé, e com uma chibatinha de baleia na mão. Levantaram uma riquíssima e branca toalha, com que estavam cobertas as frutas e muita diversidade de pratos de vários manjares. Um sujeito, que parecia clérigo, deitou-lhe a bênção, e um pajem atou ao pescoço de Sancho um guardanapo com rendas; o mestre-sala chegou-lhe um prato de fruta; mas, apenas Sancho comeu um bocado, o médico tocou com a chibatinha no prato, e logo lho tiraram com grandíssima celeridade; mas o mestre-sala chegou-lhe outro manjar. Ia Sancho prová-lo, mas, antes de lhe tocar, tocou-lhe a chibatinha, e um pajem levou-o com tanta rapidez como o da fruta. Vendo isto, Sancho ficou suspenso e, olhando para todos, perguntou se naquela ilha tinha de ver com os olhos e comer com a testa.
"...e torno a dizer que se vá embora daqui, Pedro Récio, senão pego nesta cadeira em que estou sentado e parto-lha na cabeça; e peçam-me contas dela, que eu responderei dizendo que fiz um serviço a Deus matando um mau médico, verdugo da república; e dêem-me de comer, ou então tomem lá o governo, que ofício que não dá de comer a quem o tem não vale dois caracóis." "...o governador, levantando-se, agarrou na cadeira em que estava sentado, e exclamou: — Voto a tal, dom rústico e malcriado, que, se não sais imediatamente da minha presença, com esta cadeira vos abro a cabeça de meio a meio! Ó grande patife e pintor do demónio em pessoa: pois vindes pedir-me a estas horas seiscentos ducados? E onde é que os tenho, hediondo? E por que é que eu tos havia de dar, ainda que os tivesse, socarrão e mentecapto? Que me importa a mim Miguel Turra, mais toda a linhagem dos Perlerinos? Vai-te daqui para fora, repito, senão, por vida do duque meu senhor, faço-te o que te disse. Tu não és de Miguel Turra: tu és algum maroto, que o inferno me enviou para me tentar. Dize-me, desalmado: pois há dia e meio apenas que estou com o governo e queres que eu tenha seiscentos ducados?..."
Capítulo XLVIII — Do que sucedeu a D. Quixote com Dona Rodríguez, a dona da duquesa, com outros acontecimentos dignos de escritura e memória eterna
"...Seis dias e seis noites esteve sem sair a público e, numa dessas noites, estando desperto e velando, pensando nas suas desgraças e na perseguição de Altisidora, sentiu que abriam a porta do seu aposento com uma chave, e logo imaginou que a enamorada donzela vinha para sobressaltar a sua honestidade e pô-lo em situação de trair a fé que devia guardar à sua dama Dulcinéia del Toboso...Pôs-se em pé na cama, envolto desde cima até abaixo numa colcha de cetim amarelo, com um barrete na cabeça, parches no rosto e papelotes nos bigodes;..."
"..Cravou os olhos na porta e, quando esperava ver entrar a rendida e lastimosa Altisidora, o que viu foi uma reverendíssima dona, com uma touca branca, engomada e tão longa, que a cobria desde os pés até à cabeça. Nos dedos da mão esquerda, trazia um coto de vela aceso, que resguardava com a mão, para que lhe não desse a luz nos olhos, tapados por uns óculos;..
"...Digo, enfim, senhora dona Rodríguez, que em Vossa Mercê salvando e pondo de parte qualquer recado amoroso, pode tornar a acender a sua vela, e conversaremos em tudo o que lhe aprouver e tiver em gosto, não tocando, já se vê, no mais leve melindre provocador. ...Meteu-se D. Quixote na cama, e sentou-se dona Rodríguez numa cadeira, um pouco desviada do leito, não largando nem os óculos, nem a vela. D. Quixote encolheu-se e cobriu-se todo, deixando só o rosto destapado; e, depois de sossegarem ambos,..."
Apenas D. Quixote acabou de expender estas razões, abriu-se de golpe a porta do aposento e com o sobressalto inesperado caiu a vela da mão de dona Rodríguez, e o quarto ficou mais escuro que boca de lobo, como se costuma dizer. Logo sentiu a pobre dona que lhe agarravam na garganta com ambas as mãos, e com tanta força que a não deixavam ganir, e que outra pessoa, com muita presteza, e sem dizer palavra, lhe levantava as saias, e com uma coisa que parecia ser um chinelo lhe começou a dar tantos açoites que metia compaixão; e, apesar de D. Quixote se compadecer, efetivamente, da pobre dona, não se mexia do leito e não sabia o que seria aquilo, e estava quedo e calado, e temendo até apanhar também uma tareia de açoites; e não foi vão o seu receio, porque, depois de deixarem moída a dona, os silenciosos verdugos foram-se a D. Quixote, desenroscaram-no do roupão e da colcha, e tantos beliscões lhe deram, que ele não pôde deixar de se defender a murro, e tudo isto num admirável silêncio. Durou a batalha quase meia hora; foram-se os fantasmas, apertou dona Rodríguez as saias e, chorando a sua desgraça, saiu sem dizer palavra a D. Quixote, que, dorido e beliscado, confuso e pensativo, ficou sozinho;..."
Capítulo XLIX — Do que sucedeu a Sancho Pança quando rondava a ilha
"...e o governador continuou com a sua ronda, e daí a pouco apareceram dois aguazis, que traziam um homem agarrado, e disseram: — Senhor governador, este que parece homem não o é: é mulher, e nada feia, que anda vestida de homem."
Chegaram-lhe aos olhos duas ou três lanternas e, à sua luz, viram o rosto de uma mulher de dezesseis anos, ou pouco mais: escondidos os cabelos numa coifa de seda verde e ouro, formosa como mil pérolas. Contemplaram-na de cima até baixo e viram que trazia umas meias de seda encarnada, com ligas de tafetá branco, e franjas de ouro e aljôfar; os calções eram verdes, de tela de ouro, e uma capa da mesma fazenda, por baixo da qual vestia um gibão finíssimo de branco e ouro, e os sapatos eram brancos e de homem. Não cingia espada, mas sim uma riquíssima adaga; nos dedos muitos e magníficos anéis...."
Capítulo L — Onde se declara quem foram os nigromantes e verdugos que açoitaram a dona, beliscaram e arranharam D. Quixote, com o sucesso que teve o pajem que levou a carta a Teresa Pança, mulher de Sancho Pança
"...Diz, pois, a história, que o pajem era muito agudo e discreto, e com desejo de servir a seus amos partiu de boa vontade para a terra de Sancho; e, antes de entrar na povoação, viu num regato estarem a lavar uma grande quantidade de mulheres, a quem perguntou se lhe saberiam dizer se naquela terra vivia uma mulher chamada Teresa Pança, casada com um certo Sancho Pança, escudeiro de um cavaleiro chamado D. Quixote de la Mancha; e, ouvindo a pergunta, pôs-se em pé uma rapariguita que estava lavando, e disse: — Essa Teresa Pança é minha mãe e esse tal Sancho é meu pai, e o cavaleiro de quem falais é nosso amo. ..."
"...— Vossa Mercê — respondeu o pajem — é mulher digníssima de um governador arqui-digníssimo; e, para prova da verdade, receba Vossa Mercê esta carta e este presente. E tirou da algibeira o colar de corais, com fechos de ouro, e deitou-lho ao pescoço; ...E deu-lhes as cartas. Leu-as o cura em voz alta, e ele e Sansão olharam um para o outro, admirados do que se tinha lido; e perguntou o bacharel quem é que trouxera as cartas. Respondeu Teresa que a acompanhassem a casa, e veriam o mensageiro, que era um mancebo lindo como um alfinete de toucar, e que lhe trazia outro presente que valia mais de outro tanto...."
Capítulo LI — Do progresso do governo de Sancho Pança, com outros sucessos curiosos
"O resto da noite da ronda do governador passou-a o mestre-sala sem dormir, com o pensamento embebido no rosto, donaire e beleza da disfarçada donzela, enquanto o mordomo a empregava em escrever a seu amo o que Sancho Pança fazia e dizia, tão admirável nos seus feitos como nos seus ditos, porque andavam mescladas as suas palavras e as suas ações com acertos e tolices....Mas, com a fome e com a conserva no estômago, se pôs a julgar naquele dia;...
"...e, sendo assim, dou de parecer que digais a esses senhores, que a mim vos enviaram, que, visto que se contrabalançam as razões de o condenar e as de o absolver, deixem-no passar livremente, pois é sempre mais louvado fazer o bem que fazer o mal; e isto dá-lo-ia eu assinado com o meu nome, porque me acudiu à memória um preceito, entre outros muitos que o senhor D. Quixote me deu, na noite antecedente ao dia em que entrei neste governo, que foi que, quando estivesse em dúvida, me acolhesse à misericórdia;...— Assim é — respondeu o mordomo — e tenho para mim, que o próprio Licurgo, que deu leis aos lacedemônios, não podia proferir melhor sentença do que a que pronunciou o grande Pança; e acabe-se com isto a audiência desta manhã, e darei ordem para que o senhor governador coma muito a seu gosto...." "...Criou um aguazil de pobres, não para os perseguir, mas para examinar se o eram, porque à sombra de aleijão fingido, ou de chaga falsa, andam ladrões os braços e bêbeda a saúde. Enfim, ordenou coisas tão boas, que ainda hoje se guardam naquele lugar e se chamam — as constituições do grande governador Sancho Pança."
Capítulo LII — Onde se conta a aventura da segunda Dona Dolorida ou Angustiada, chamada por outro nome Dona Rodríguez
"Conta Cid Hamete que, estando já D. Quixote curado das suas arranhaduras, lhe pareceu que a vida que passava naquele castelo era absolutamente contrária à ordem da cavalaria que professava; e, assim, resolveu pedir licença aos duques para partir para Saragoça, porque vinham próximas as festas daquela cidade, onde ele tencionava ganhar o arnês, que ali se conquista. E estando um dia à mesa com os duques e começando a pôr em obra a sua intenção, e a pedir a licença, eis que entram pelas portas da sala duas mulheres, todas cobertas de luto; e uma delas, chegando-se a D. Quixote, deitou-se-lhe aos pés, estirada no chão, e, cosendo-lhe a boca aos sapatos, dava uns gemidos tão tristes, tão profundos e tão dolorosos, que pôs em confusão todos os que a ouviam e contemplavam;
e, ainda que os duques pensaram que seria alguma caçoada, que os seus criados quisessem fazer a D. Quixote, todavia, vendo o afinco com que a mulher gemia, chorava e suspirava, ficaram duvidosos, até que D. Quixote, compassivo, a levantou do chão, e fez com que se descobrisse e tirasse o manto de cima da face chorosa. Ela obedeceu e mostrou ser o que nunca se poderia imaginar: a própria dona Rodríguez; e a outra enlutada era sua filha, a vítima das seduções do filho do rico lavrador. Admiraram-se todos que a conheciam, e mais do que todos eles os duques, que, ainda que a tinham por tola, nunca imaginaram que chegaria a fazer semelhantes loucuras. ... "...As cartas foram motivo de muito aplauso e de muito riso, muito estimadas e muito admiradas; e, para pôr o remate ao dia, chegou o correio que trazia a que Sancho enviava a D. Quixote, que também a leu publicamente, ficando com essa carta muito duvidosa a sandice do governador. Retirou-se a duquesa, para saber do pajem o que lhe sucedera na terra de Sancho, o que ele lhe referiu muito por extenso, sem esquecer uma circunstância só; deu-lhe as bolotas, e mais um queijo, que Teresa mandava por ser tão bom, que ainda se avantajava aos de Tronchon; recebeu-o a duquesa com grandíssimo gosto, e com ele a deixaremos, para contar o fim que teve o governo do grande Sancho Pança, flor e espelho de todos os governadores insulanos."
Capítulo LIII — Do cansado termo e remate que teve o governo de Sancho
"...mas aqui, o nosso autor se refere à presteza com que se acabou, se consumiu, se desfez e se dissipou, como em sombra e em fumo, o governo de Sancho, o qual, estando na cama, na sétima noite da sua grandeza, mais farto de julgar e de dar sentenças, de fazer estatutos e pragmáticas do que de pão e de vinho, quando apesar da fome lhe começava o sono a cerrar as pálpebras, ouviu tamanho ruído de sinos e de vozes, que não parecia senão que a ilha toda ia ao fundo...— Arme-se depressa Vossa Senhoria, se não quer perder, e se não quer que esta ilha toda se perca...."
"— Armem-me, embora — replicou Sancho. E logo lhe trouxeram dois escudos, de que vinham providos, e puseram-lhe em cima da camisa, sem lhe deixar vestir coisa alguma, um escudo adiante e outro atrás, e, por uns buracos que traziam feitos, lhe tiraram os braços e o amarraram muito bem com uns cordéis, de modo que ficou emparedado e entalado, direito como um fuso, sem poder dobrar os joelhos nem dar uma passada." "...— Ande, senhor governador — acudiu outro — que o medo, e não as talas, o atrapalha; acabe com isso e mexa-se, que é tarde, e os inimigos recrescem, e os brados aumentam, e o perigo carrega. Com estas persuasões e vitupérios, quis ver o pobre governador se se movia, e baqueou no chão, dando tamanha pancada, que imaginou que se fizera em pedaços. Ficou parecendo mesmo uma tartaruga metida na concha, ou um barco virado na areia;"
"e nem o vê-lo caído inspirou a mínima compaixão àquelas gentes zombeteiras; antes, apagando os archotes, tornaram a reforçar os gritos e a reiterar o alarme, com tanta pressa, passando por cima do pobre Sancho, dando-lhe infinitas cutiladas, que, se ele não se recolhe e encolhe, sumindo a cabeça entre os escudos, passava grandes trabalhos o pobre do governador, que, metido naquela estreiteza, suava e tressuava, e de todo o coração se encomendava a Deus, para que o livrasse daquele perigo. Uns tropeçavam nele, outros caíam, e houve tal que esteve em cima das suas costas um bom pedaço;"
"— O inimigo, que eu venci, podem pregar-mo na testa; não quero repartir despojos de inimigos, mas pedir e suplicar a algum amigo, se é que o tenho, que me dê um gole de vinho, que estou mesmo seco das goelas, e me enxugue este suor, que me desfaço em água. Limparam-no, trouxeram-lhe o vinho, desataram-lhe os escudos, sentou-se no leito, e desmaiou de temor, de sobressalto e de fadiga. Já os da burla estavam pesarosos de lha terem feito tão pesada; mas, quando Sancho tornou a si, atenuou-se-lhes a pena que lhes causara o seu desmaio. Perguntou ele que horas eram; responderam-lhe que já ia a amanhecer. Calou-se, e, sem dizer mais nada, começou a vestir-se, sepultado em silêncio, e todos olhavam para ele, e esperavam em que viria a parar tanta pressa. Acabou, enfim, de se vestir, e, pouco a pouco, porque estava moído e não podia andar muito rapidamente, foi à cavalariça, seguindo-o todos os que ali se achavam, e, chegando-se ao ruço, abraçou-o, e deu-lhe na testa um ósculo de paz, e, com as lágrimas nos olhos,...." "E, enquanto estas razões ia dizendo, ia também albardando o burro, sem que ninguém lhe dissesse coisa alguma. Albardado, pois, o ruço, com grande pena e pesar montou em cima dele e, dirigindo-se ao mordomo, ao secretário, ao mestre-sala e ao doutor Pedro Récio, e a muitos outros que ali estavam presentes, disse: — Abri caminho, senhores meus, e deixai-me voltar à minha antiga liberdade;...Todos acordaram nisso e deixaram-no ir, oferecendo-lhe primeiro companhia, e tudo o que quisesse para regalo da sua pessoa, e comodidade da sua viagem. Sancho disse que não queria senão uma pouca de cevada para o ruço, e meio queijo e meio pão para si; que, visto ser tão curto o caminho, não era mister maior nem menor viático. Abraçaram-no todos, e ele, chorando, a todos abraçou, e deixou-os admirados das suas razões e da sua determinação, tão resoluta e discreta."
Capítulo LIV — Que trata de coisas tocantes a esta história, e a nenhuma outra
"...e vamos acompanhar Sancho, que, entre alegre e triste, vinha caminhando montado no ruço, a procurar seu amo, cuja companhia lhe agradava mais do que ser governador de todas as ilhas do mundo... e apartemo-nos do caminho para aquela alameda que ali aparece, onde querem jantar e descansar os meus companheiros, e jantarás com eles,... Estenderam-se no chão, e, fazendo toalha da relva, puseram-lhe em cima pão, sal, facas, nozes, fatias de queijo, e ossos de presunto, que, se não se deixavam trincar, não se eximiam a ser chupados. Puseram também um manjar negro, que dizem que se chama caviar, e é feito de ovas de peixe, grande despertador da sede;..."
"....e logo, todos à uma, levantaram os braços e as garrafas, e, pondo à boca os gargalos, com os olhos cravados no céu, não parecia senão que era para lá que apontavam; e, deste modo, meneando as cabeças para um lado e para outro, sinais que mostravam bem o gosto que lhes dava o beber, estiveram um bom pedaço, transvazando para os seus estômagos as entranhas das vasilhas... liguei-me a estes peregrinos, que têm por costume vir todos os anos visitar os santuários de Espanha, que consideram as suas Índias," "— Já te disse que não quero, Ricote — respondeu Sancho — contenta-te com saberes que não sou capaz de te descobrir; segue o teu caminho em boa hora, e deixa-me seguir o meu, que bem sei que o que bem se ganhou perde-se facilmente; mas, o que mal se ganhou perde-se ele e perde-se a gente. ....Abraçaram-se ambos, Sancho montou no ruço, Ricote animou-se ao bordão, e apartaram-se.
Capítulo LV — De coisas sucedidas a Sancho, e outras que não há mais que ver
"A demora, que Sancho teve no caminho, não lhe deu lugar a que nesse dia chegasse ao castelo do duque; e, quando estava a meia légua de distância, apanhou-o a noite, um pouco cerrada e escura; mas, como era de verão, não se afligiu, e desviou-se com tenção de esperar que rompesse a manhã; e quis a sua pouca ventura que, andando à busca de sítio onde melhor se acomodasse, caíram ele e o ruço numa funda e escuríssima cova que estava entre uns edifícios muito antigos, e, quando caiu encomendou-se a Deus de todo o coração, pensando que iria parar às profundas dos abismos; não foi assim, porque, a pouco mais de quatro toesas, deu fundo o ruço e Sancho ficou montado nele, sem lesão nem dano algum...Apalpou também, com as mãos, as paredes da cova, para ver se seria possível sair dela sem ajuda de ninguém, mas achou-as todas lisas e sem relevo algum, e com isso muito se afligiu, principalmente ouvindo o ruço queixar-se terna e dolorosamente;..."
"...Sucedeu, pois, que, saindo uma manhã a ensaiar-se no que havia de fazer nesse lance, dando um repelão ou arremetida a Rocinante, chegou este a pôr os pés tanto à beira duma cova que, se D. Quixote não puxasse fortemente as rédeas ser-lhe-ia impossível não cair para dentro. Enfim, susteve-se e não caiu; e, chegando-se um pouco mais ao pé, sem se apear, mirou aquela profundeza, e, quando a estava mirando, ouviu grandes brados lá dentro, e, escutando atentamente, pôde perceber as seguintes palavras: — Olá de riba! há aí algum cristão que me escuta? ou algum cavaleiro caritativo que se compadeça de um pecador enterrado em vida? de um desditoso governador desgovernado?...
"Deixou-o D. Quixote, e foi ao castelo contar aos duques o que sucedera a Sancho Pança, de que não pouco se maravilharam, ainda que bem perceberam que devia ter caído pela outra abertura da gruta, que ali estava feita desde tempos imemoriais; mas, não podiam imaginar como ele deixara o governo, sem serem avisados da sua vinda. Finalmente, levaram cordas e maromas, e, com muita gente e muito trabalho, tiraram o ruço e Sancho Pança daquelas trevas, para a luz do sol....Nestas práticas chegaram, rodeados de rapazes e de muita outra gente, ao castelo, onde já estavam nuns corredores o duque e a duquesa esperando D. Quixote e Sancho, e este não quis subir a ir ver o duque, sem meter primeiro o ruço na cavalariça, alegando que ele passara muito má noite na sua pousada; e depois subiu e, ajoelhando diante dos seus senhores, ...Abraçou-o a duquesa também e deu ordem que o regalassem, porque dava sinais de vir muito moído e em muito maus lençóis."
Capítulo LVI — Da descomunal e nunca vista batalha que houve entre D. Quixote de la Mancha e o lacaio Tosilos, em defesa da filha da dona da duquesa, Dona Rodríguez
"...chegou o dia da batalha aprazada; e, tendo o duque uma e muitas vezes ensinado ao seu lacaio Tosilos como se havia de haver com D. Quixote para o vencer, sem o ferir nem o matar, ordenou que se tirassem os ferros das lanças, dizendo a D. Quixote que não permitiam os sentimentos cristãos, de que se prezava, que aquela batalha fosse com tanto risco e perigo das vidas, e que se contentasse com o dar-lhe ele campo franco em suas terras, apesar de ir contra o decreto do santo concílio, que proíbe tais desafios, e que não quisesse levar com todo o rigor aquele transe tão forte...Chegado, pois, o temeroso dia, e tendo o duque ordenado que diante do terreiro do castelo se armasse um espaçoso palanque, onde estivessem os juízes do campo e as donas mãe e filha, queixosas, acudiu de todos os lugares e aldeias circunvizinhas infinita gente, a ver a novidade daquela batalha,..."
"...Parece que, quando esteve contemplando a sua dama, achou que era ela a mais formosa mulher que vira em toda a sua vida; e o cego deus travesso, que por essas ruas chamam habitualmente amor, não quis perder a ocasião que se lhe ofereceu de triunfar de uma alma lacaiesca, e de a pôr na lista dos seus troféus; e assim, chegando-se a ele sem que ninguém o visse, despejou no pobre lacaio, pelo lado esquerdo, uma seta de duas varas, e traspassou-lhe o coração de parte a parte; e pôde-o fazer a são e salvo, porque o amor é invisível; entra e sai por onde quer, sem que ninguém lhe peça conta das suas ações. Digo, pois, que, quando deram o sinal da arremetida, estava o nosso lacaio transportado, pensando na formosura daquela que já fizera senhora da sua liberdade; e assim, não atendeu ao som da trombeta, como fez D. Quixote, que, apenas o ouviu, arremeteu logo, correndo com toda a velocidade que Rocinante podia dar;...Foi-se embora a gente; voltaram o duque e D. Quixote ao castelo; fecharam Tosilos, e ficaram dona Rodríguez e sua filha contentíssimas, por ver que, de um modo ou de outro, aquele caso havia de vir a parar em matrimônio; e Tosilos também o não esperava menos.
Capítulo LVII — Que trata de como D. Quixote se despediu do duque, e do que sucedeu com a discreta e desenvolta Altisidora, donzela da duquesa
"...e assim, um dia pediu licença aos duques para se ir embora. Deram-lha, com mostras de que lhes pesava muito que ele os deixasse...., saindo D. Quixote, havendo-se despedido, na noite anterior, dos duques, apresentou-se armado no terreiro do castelo. Contemplavam-no das varandas os familiares, e os duques também saíram para o ver...de repente, entre as outras donas e donzelas da duquesa, levantou a voz a desenvolta e discreta Altisidora,....Ficou a duquesa admirada da desenvoltura de Altisidora, que, ainda que a tinha por desembaraçada e graciosa,... "
"Levas três lenços, e as ligas de umas pernas torneadas, que são como o puro mármore, lisas, duras, jaspeadas." "...— Uma só quero que me ouças, ó valoroso D. Quixote — disse então Altisidora — e é que te peço perdão do latrocínio das ligas, porque vejo agora que as tenho postas, e estava como o outro que, montado no burro, andava à procura dele. ... D. Quixote abaixou a cabeça e fez uma reverência aos duques e a todos os circunstantes; e, voltando as rédeas a Rocinante, e seguindo-o Sancho montado no burro, saiu do castelo, dirigindo o seu caminho para Saragoça."
Capítulo LVIII — Que trata de como choveram em cima de D. Quixote tantas aventuras, que não tinha vagar para todas
"...iam entrando por uma selva que estava fora do caminho, e de súbito, sem dar por tal, achou-se D. Quixote enleado numas redes de fios verdes, que estavam estendidas de umas árvores para outras; e, sem poder imaginar o que aquilo pudesse ser...E, querendo passar e romper tudo, de improviso se apresentaram diante dele, saindo do meio de umas árvores, duas formosíssimas pastoras, pelo menos raparigas vestidas de pastoras, ainda que os corpos dos vestidos eram de fino brocado, e as saias de tafetá de ouro; traziam soltos, nos ombros, os cabelos, que de loiros podiam competir com o próprio sol, e que vinham coroados de grinaldas, entretecidas de verde laurel e de vermelho amaranto; pareciam ter entre quinze e dezoito anos. Vista foi esta que deixou Sancho admirado e D. Quixote suspenso;... temos, entre estes ramos, armadas algumas tendas de campanha, na margem de um arroio abundante em águas....Se vos aprouver ser nosso hóspede, senhor, sereis agasalhado cortês e liberalmente... "
"....dali a pouco se descobrisse no caminho uma grande multidão de homens a cavalo, e muitos deles com lanças nas mãos, caminhando todos apinhados, de tropel e com grande pressa. Apenas os viram os que estavam com D. Quixote, logo, voltando as costas, se afastaram para longe do caminho, porque bem conheceram que, se esperassem, lhes podia suceder algum mal; só D. Quixote, com intrépido coração, permaneceu quedo, e Sancho se encobriu com a garupa de Rocinante. Chegou o tropel dos lanceiros, e um deles, que vinha mais adiante, começou a dizer com grandes brados para D. Quixote: — Afasta-te do caminho, homem do diabo, que estes touros te despedaçam."
"...Não teve tempo de responder o vaqueiro, nem D. Quixote de se desviar, ainda que o quisesse; e assim, o tropel dos touros bravos, e o dos mansos cabrestos, com a multidão dos vaqueiros e das outras gentes que os levavam, para os meter no curro, num lugar onde no outro dia haviam de ser corridos, passaram por cima de D. Quixote, de Sancho, de Rocinante e do ruço, e deram com todos eles em terra, deixando-os a rebolar pelo meio do chão. Ficou moído Sancho, espantado D. Quixote, desancado o ruço, e Rocinante não muito cristalino; mas, enfim, levantaram-se todos, e D. Quixote com muita pressa, caindo aqui, tropeçando acolá, principiou a correr atrás da manada...."
"... Mas nem com isso se detiveram os apressados corredores, e fizeram tanto caso das suas ameaças, como das nuvens do ano anterior. Cansou D. Quixote, e, mais enojado que vingado, sentou-se à beira da estrada, esperando que chegassem Sancho, Rocinante e o ruço. Chegaram; tornaram a montar a cavalo o amo e o criado; e, sem voltarem a despedir-se da Arcádia fingida, com mais vergonha que gosto seguiram o seu caminho."
Capítulo LIX — Onde se conta o extraordinário caso, que se pode chamar aventura, que aconteceu a D. Quixote
"À poeira e ao cansaço, que D. Quixote e Sancho tiraram do descomedimento dos touros, deu remédio uma fonte clara e límpida, que encontraram entre um fresco arvoredo, e à beira da fonte se sentaram amo e criado, deixando Rocinante e o ruço livres, sem aparelho nem freio. Acudiu Sancho à despensa dos seus alforjes, e deles tirou o que costumava chamar as vitualhas; enxaguou D. Quixote a boca, lavou a cara e, com esse refrigério, recobrou alento o seu desanimado espírito;...... "
"...deitaram-se ambos a dormir, deixando entregues ao seu alvedrio, pastando a abundante erva de que estava cheio aquele prado, os seus dois companheiros e amigos, Rocinante e o ruço. Despertaram um pouco tarde; tornaram a montar a cavalo e a seguir o seu caminho, apressando o passo para chegarem a uma venda, que se descobria a coisa duma légua de distância; digo que era venda, porque D. Quixote assim lhe chamou, fora do uso que tinha de chamar a todas as vendas castelos..."
"...entraram pela porta do seu aposento dois cavaleiros, e um deles, deitando os braços ao pescoço de D. Quixote, disse-lhe: — Nem a vossa presença pode desmentir o vosso nome, nem o vosso nome pode desacreditar a vossa presença. ..."
"...Os dois cavaleiros pediram a D. Quixote que fosse cear com eles,... perguntou D. João a D. Quixote que notícias tinha da senhora Dulcineia del Toboso...— Dulcinéia está donzela, e os meus pensamentos são mais firmes do que nunca: as correspondências continuam na sua antiga escassez, a sua formosura está transformada na fealdade duma soez lavradeira. E logo lhes foi contando, ponto por ponto, o encantamento da senhora Dulcinéia, e o que lhe sucedera na cova de Montesinos,..." "...Com isto se despediram, e D. Quixote e Sancho retiraram-se para o seu aposento, deixando D. João e D. Jerônimo admirados de ver a mescla que ele tinha feito da sua discrição e da sua loucura; e acreditaram que eram estes os verdadeiros D. Quixote e Sancho, não os que descrevia o seu autor aragonês. Madrugou D. Quixote e, batendo com os nós dos dedos nos tabiques do outro aposento, se despediu dos seus novos amigos. Pagou Sancho ao vendeiro magnificamente, e aconselhou-lhe que gabasse menos o fornecimento da sua venda, e a tivesse melhor fornecida."
Capítulo LX — Do que sucedeu a D. Quixote no caminho de Barcelona
"...Não lhe aconteceu coisa digna de se escrever em mais de seis dias, ao cabo dos quais, indo fora do caminho ou carreira, apanhou-o a noite num espesso carvalhal ou sobreiral. Apearam-se das suas cavalgaduras o amo e o criado, e, encostando-se aos troncos das árvores, Sancho, que naquele dia merendara, entrou logo a dormir; mas D. Quixote, a quem conservavam desperto ainda muito mais as suas imaginações do que a fome, não podia pregar olho, antes ia e vinha com o pensamento por mil géneros de lugares...."
"....podia suceder agora com o desencantamento de Dulcinéia, se eu açoitasse Sancho contra vontade dele; porque, se a condição deste remédio está em receber Sancho os três mil e tantos açoites, que se me dá a mim que os dê ele, ou que lhos dê outro? o essencial é que ele os receba, venham donde vierem!” Pensando nisto, aproximou-se de Sancho, tendo primeiro agarrado nas rédeas de Rocinante; e, juntando-as de modo que pudesse açoitá-lo com elas, principiou a tirar-lhe a cinta; mas, apenas o começou a desapertar, acordou Sancho...— Isso não — tornou Sancho; — Vossa Mercê faça favor de estar quieto, senão os surdos nos hão-de ouvir;..."
"Prometeu D. Quixote e jurou por vida dos seus pensamentos não lhe tocar na roupa, e deixá-lo açoitar-se quando quisesse, por sua livre vontade e alvedrio. Ergueu-se Sancho e desviou-se daquele sítio um bom pedaço e, indo arrimar-se a um tronco de árvore, sentiu que lhe tocavam na cabeça e, levantando as mãos, topou dois pés de gente, com sapatos e calças. Tremeu de medo, procurou outra árvore, e aconteceu-lhe o mesmo; deu brados, chamando D. Quixote que lhe acudisse. Correu seu amo, e, perguntando-lhe o que é que sucedera, e de que é que tinha medo, respondeu-lhe Sancho que todas aquelas árvores estavam cheias de pernas e de pés humanos. Apalpou-os D. Quixote e logo percebeu o que seria, e disse a Sancho: — Não tenhas medo, porque estes pés e pernas, que apalpas e não vês, decerto são de alguns foragidos e bandoleiros, enforcados nestas árvores, que por estes sítios os costuma enforcar a justiça quando os apanha, de vinte a vinte, e de trinta a trinta árvores, e por isso percebo que devo estar ao pé de Barcelona."
"...Ao amanhecer, levantaram os olhos e viram os cachos daquelas árvores, que eram corpos de bandoleiros. Já nisto vinha amanhecendo, e, se os mortos os tinham espantado, também os atribularam mais de quarenta bandoleiros vivos, que de improviso os rodearam, dizendo-lhes, em língua catalã, que estivessem quedos e esperassem pelo capitão. ..se não chegasse nesse momento o seu capitão, que mostrava ser homem de trinta e quatro anos, robusto, bem proporcionado, mais alto que baixo...Chegou-se a ele dizendo:— Não estejais tão triste, bom homem, porque não caístes nas mãos de algum cruel Osíris, mas sim nas de Roque Guinart, que têm mais de compassivas que de rigorosas.."
"....e logo partiu com Cláudia a toda a brida, à procura do ferido ou morto D. Vicente...Encontraram D. Vicente nos braços dos seus servos, a quem pedia, com voz cansada e débil, que o deixassem ali morrer, porque a dor das feridas não consentia que fosse mais adiante. Saltaram dos cavalos abaixo, chegaram-se a eles; tremeram os criados com a presença de Roque e turbou-se Cláudia com a de D. Vicente;...Os criados de D. Vicente levaram-lhe o corpo, e Roque voltou para os seus: e este fim tiveram os amores de Cláudia Jerónima."
"....Achou Roque Guinart os seus escudeiros no sítio para onde os mandara, e D. Quixote com eles, montado em Rocinante, fazendo-lhes uma prática, em que lhes persuadia que deixassem aquele modo de vida, tão perigoso, tanto para a alma como para o corpo; mas, como a maior parte deles eram gascões, gente rústica e fera, não lhes entrava bem na cabeça a prática de D. Quixote...Apenas Roque chegou, perguntou a Sancho se lhe haviam restituído o que lhe tinham tirado do ruço. Respondeu Sancho que sim, mas que só lhe faltavam três lenços, que valiam três cidades. ." "Um dos escudeiros disse na sua língua, meia gascã, meia catalã: — Este nosso capitão serve mais para frade, que para bandoleiro: se daqui por diante quiser mostrar-se liberal, que seja com a sua fazenda e não com a nossa. Não o disse tão devagar o desventurado, que Roque deixasse de o ouvir, e este logo, lançando mão à espada, lhe abriu a cabeça quase de meio a meio, dizendo-lhe: — Assim castigo os desbocados e atrevidos. Pasmaram todos, e nenhum se atreveu a dizer uma palavra: tanta era a obediência que lhe tinham. Afastou-se Roque para o lado e escreveu uma carta a um seu amigo de Barcelona, avisando-o de que estava com ele o famoso D. Quixote de la Mancha, aquele cavaleiro andante de quem tantas coisas se diziam;..."
Capítulo LXI — Do que sucedeu a D. Quixote na entrada de Barcelona, com outras coisas que têm mais de verdadeiras que de discretas
"Três dias e três noites esteve D. Quixote com Roque e, se estivesse trezentos anos, não lhe faltaria que ver e admirar no seu modo de vida...partiram Roque, D. Quixote e Sancho, com mais seis escudeiros, para Barcelona. Chegaram ali na véspera de S. João, à noite, e, abraçando Roque a D. Quixote e a Sancho, a quem deu os dez escudos prometidos...Estenderam D. Quixote e Sancho a vista por todos os lados, viram o mar, que até então nunca tinham visto, e pareceu-lhes imenso e espaçosíssimo, muito maior que as Lagoas de Ruidera, que tinham na Mancha.."
"...Nisto, vieram correndo com gritos: “é ele, é ele, é ele”, em grande algazarra, os cavaleiros das vistosas galas e, dirigindo-se para o sítio onde estava, atónito e suspenso, D. Quixote, um deles, que era o que Roque avisara, disse em alta voz a D. Quixote: — Seja bem-vindo à nossa cidade o espelho, o farol, a estrela e o norte de toda a cavalaria andante,......"
"....Com palavras não menos comedidas do que estas lhe respondeu o cavaleiro e, metendo-o todos no meio, ao som das charamelas e dos timbales, encaminharam-se com ele para a cidade, a cuja entrada o mafarrico, que todo o mal ordena, e os gaiatos, que ainda são piores do que ele, tramaram uma partida: dois garotos, travessos e atrevidos, meteram-se por meio de toda a gente e, levantando um deles o rabo do ruço e outro o de Rocinante, ataram-lhes um molho de cardos. Sentiram os pobres animais essas esporas de novo gênero e, apertando as caudas, ainda aumentavam a dor; de modo que, aos corcovos e aos coices, deram com seus donos em terra. D. Quixote, corrido e afrontado, apressou-se a tirar os cardos do rabo do seu companheiro, e Sancho os do jumento. Quiseram os que guiavam D. Quixote castigar o atrevimento dos gaiatos, mas não foi possível, porque se meteram no meio de mais de mil que os seguiam. Tornaram a montar D. Quixote e Sancho e, com o mesmo aplauso e música, chegaram a casa do seu guia, que era grande e principal, enfim como de cavaleiro rico; e aí os deixaremos por agora, porque assim o quer Cid Hamete."
Capítulo LXII — Que trata da aventura da cabeça encantada, com outras ninharias que não podem deixar de se contar
"Chamava-se D. António Moreno o hospedeiro de D. Quixote, cavaleiro rico e discreto e amigo de se divertir honesta e afavelmente; e, vendo em sua casa D. Quixote, andava procurando modo de trazer a campo as suas loucuras, sem lhe fazer dano, porque são más brincadeiras as que doem, nem há passatempos que valham, sendo em prejuízo alheio. A primeira coisa que fez foi mandar desarmar D. Quixote e pôr à vista aquele seu apertado gibão, que já por muitas vezes descrevemos e pintamos e levá-lo para uma sacada, que deitava para uma das ruas mais principais da cidade, e tendo-o em exposição diante de todos que o miravam, como se ele fosse um animal curioso."
"...Chegou a noite, voltaram para casa e houve sarau de damas; porque a mulher de D. António, que era uma senhora principal e alegre, formosa e discreta, convidou outras suas amigas para vir honrar o seu hóspede e saborear as suas nunca vistas loucuras. Apareceram algumas, ceou-se esplendidamente e principiou o sarau quase às dez da noite. Entre as damas, havia duas de génio alegre e zombeteiro; e, sendo muito honestas, eram, contudo, desenvoltas bastante, para que as suas burlas agradassem sem enfadar.
"Estas tanto teimaram em tirar D. Quixote para dançar, que lhe moeram não só o corpo, mas a alma também. Era coisa de ver a figura de D. Quixote, comprido e estirado, magro e amarelo, de fato muito justo, desengonçado e, sobretudo, pouquíssimo ligeiro. Requebravam-no, como que a furto, as donzelas, e ele também, como que a furto, as desdenhava; mas, vendo-se apertado com requebros, levantou a voz e disse: — Fugite, partes adversæ; deixai-me no meu sossego, pensamentos importunos; levai para outro lado, senhoras, os vossos desejos, que aquela que dos meus é rainha, a incomparável Dulcinéia del Toboso, não consente que nenhuns outros, sem serem os seus, me rendam e avassalem.
"E, dizendo isto, sentou-se no chão, no meio da casa, moído e quebrantado com tão bailador exercício. Mandou D. Antônio que o levassem em peso para o leito, e o primeiro que lhe deitou a mão foi Sancho, que lhe disse: — Safa, senhor meu amo, muito bailaste! então pensais que todos os valentes são dançadores e todos os cavaleiros andantes bailarinos? Digo que, se tal pensais, estais enganado. Há homem, que mais depressa se atreverá a matar um gigante, que a dar uma cabriola; quando houverdes de sapatear, eu suprirei a vossa falta, que sapateio com um gerifalte; mas, lá no dançar não dou rego. Com estas e outras palavras divertiu Sancho os do sarau e meteu seu amo na cama, cobrindo-o de roupa, para que se curasse, suando, do esfriar do baile...."
"...Ao outro dia entendeu D. António que era tempo de fazer a experiência da cabeça encantada, e com D. Quixote, Sancho, e mais dois amigos, e as duas senhoras que tinham moído D. Quixote no baile e passado a noite com a mulher de D. Antônio, fechou-se no quarto onde estava a cabeça. Contou-lhes a propriedade que tinha, pediu-lhes segredo e disse-lhes que era esse o primeiro dia em que se havia de experimentar a virtude da tal cabeça encantada; e, a não serem os dois amigos de D. Antônio, mais nenhuma pessoa sabia o busílis do encantamento; e, ainda assim, se D. Antônio lho não tivesse descoberto primeiro, também eles cairiam no pasmo em que os outros caíram: nem outra coisa era possível — com tal arte e tão boa traça estava fabricada. O primeiro, que se chegou ao ouvido da cabeça, foi o mesmo D. Antônio, e disse-lhe em voz submissa, mas não tanto que o não entendessem todos: — Dize-me, cabeça, pela virtude que em ti se encerra: em que penso agora? E a cabeça respondeu-lhe, sem mover os lábios, com voz clara e distinta, de modo que foi por todos entendida, o seguinte:— Não julgo de pensamentos...Chegou-se em seguida D. Quixote e perguntou: — Dize-me tu, ó ente que respondes: foi verdade, ou foi sonho, o que eu conto que passei na cova de Montesinos? Serão certos os açoites de Sancho, meu escudeiro? Terá efeito o desencantamento de Dulcinéia? — Enquanto ao que se passou na cova — respondeu a cabeça — há muito que se lhe dizer: tem de tudo; os açoites de Sancho hão-de ir devagar, e o desencantamento de Dulcinéia chegará a devida execução."
Capítulo LXIII — De como Sancho Pança se deu mal com a visita às galés e da nova aventura da formosa mourisca
"...naquela tarde, D. António Moreno e os seus dois amigos, com D. Quixote e Sancho, foram às galés. O capitão-mor, que estava prevenido da sua vinda, apenas eles chegaram ao cais, mandou que todas as galés os saudassem com os pavilhões e que tocassem as charamelas; ."
"...E mostrou-lhe o rapaz, que estava já de mãos atadas e corda na garganta, esperando a morte. Olhou o vice-rei para ele e, vendo-o tão formoso, tão galhardo e tão humilde, e compadecendo-se da sua formosura, desejou evitar-lhe a morte, e perguntou-lhe: — Dize-me, arrais: és turco de nação, mouro ou renegado? — Nem sou turco de nação, nem mouro, nem renegado — respondeu o arrais. — Então o que és? — redarguiu o vice-rei. — Mulher cristã — tornou o mancebo. — Mulher! e cristã! com tal trajo e em tal situação! É coisa mais para se admirar do que para se acreditar.— Suspendei, senhores — disse o moço — a execução da minha morte, que não se perderá muito em se dilatar a vossa vingança, enquanto eu vos conto a minha vida. Quem haveria de coração tão duro, que se não abrandasse com estas palavras ou, pelo menos, que não desejasse ouvir o que o triste mancebo queria dizer? ...desembarcou o vice-rei, e D. Antônio Moreno levou consigo a mourisca e seu pai, encarregando-o o vice-rei de os tratar o melhor que lhe fosse possível, que, pela sua parte, lhe oferecia tudo o que em sua casa houvesse — tal foi a benevolência e a caridade que a formosura de Ana Félix lhe acendeu no peito.
Capítulo LXIV — Que trata da aventura que mais afligiu D. Quixote de todas quantas até então lhe tinham acontecido
"...e uma manhã andando D. Quixote a passear na praia, armado com todas as armas, porque, como dizia muitas vezes, eram as suas galas e o seu descanso o pelejar, e nunca o encontravam sem elas, viu vir para ele um cavaleiro, armado também de ponto em branco, que trazia pintada no escudo uma lua resplandecente;..venho contender contigo e experimentar a força dos teus braços, para te fazer conhecer e confessar que a minha dama, seja quem for, é sem comparação mais formosa do que a tua Dulcineia del Toboso;...Ficou D. Quixote suspenso e atônito, tanto pela arrogância do cavaleiro da Branca Lua, como pelo motivo por que o desafiava ."
"...e, como era mais ligeiro o da Branca Lua, esbarrou com D. Quixote a dois terços da carreira, com tanta força, sem lhe tocar com a lança, e levantando-a até de propósito, que deu em terra com Rocinante e com D. Quixote....— Vencido estais, cavaleiro, e podeis dar-vos por morto, se não confessais as condições do nosso desafio. D. Quixote, moído e atordoado, sem levantar a viseira e como se falasse de dentro dum túmulo, com voz debilitada e enferma, disse: — Dulcineia del Toboso é a mais formosa mulher do mundo e eu o mais desditoso cavaleiro da terra, e a minha fraqueza não pode nem deve defraudar esta verdade: carrega, cavaleiro, a lança, e tira-me a vida, já que me tiraste a honra. — Isso não faço eu — disse o da Branca Lua — viva na sua inteireza a fama da formosura da senhora Dulcineia del Toboso, e satisfaço-me retirando-se o grande D. Quixote para a sua terra, por espaço dum ano, ou até ao tempo que por mim lhe for ordenado, como combinamos antes de entrar em batalha..
"...Levantaram D. Quixote, descobriram-lhe o rosto e acharam-no pálido e suado. Rocinante não se pôde mover, de derreado que estava. Sancho, todo triste e pesaroso, não sabia o que havia de dizer, nem o que havia de fazer. Parecia-lhe tudo aquilo um sonho e coisa de encantamento. Via seu amo rendido e obrigado a não pegar em armas durante um ano; imaginava escurecida a luz da glória das suas façanhas, desfeitas as suas esperanças como se desfaz o fumo com o vento. Receava que estivesse aleijado ou Rocinante ou seu amo. Finalmente, numa cadeirinha, que o vice-rei mandou buscar, levaram D. Quixote para a cidade e o vice-rei voltou também, com desejo de saber quem seria o cavaleiro da Branca Lua, que em tão mau estado deixara D. Quixote...."
Capítulo LXV — Em que se dá notícia de quem era o cavaleiro da Branca Lua, com a liberdade de D. Gregório e outros sucessos
"...Sabei, senhor, que me chamo o bacharel Sansão Carrasco; sou da mesma terra de D. Quixote de la Mancha, cuja loucura e sandice faz com que tenhamos pena dele todos os que o conhecemos, e um dos que mais se compadeceram fui eu; e, convencido de que a sua salvação há-de ser o descanso, e o estar na sua terra e na sua casa, procurei modo de conseguir que para lá voltasse; e assim, haverá três meses, saí-lhe ao caminho como cavaleiro andante, chamando-me o cavaleiro dos Espelhos,...
"...mas a sorte decidiu outra coisa, porque foi ele que me venceu e me derribou do cavalo; e assim, não se pôde realizar o que eu queria: seguiu o seu caminho e eu voltei para trás, vencido, corrido e moído da queda, que foi bastante perigosa; mas, nem assim perdi a vontade de procurá-lo de novo e, vencê-lo, o que hoje fiz. E, como ele é pontual em guardar as ordens da cavalaria andante, sem dúvida alguma guardará a que lhe dei, em cumprimento da sua palavra...e, depois de se pôr à disposição de D. António para tudo o que ele desejasse e de ter mandado amarrar as suas armas em cima dum macho, montou no seu cavalo, saiu da cidade naquele mesmo dia e voltou para sua pátria, sem lhe suceder coisa que mereça ser contada." "...Seis dias esteve D. Quixote de cama, triste, pensativo, aflito e incomodado, não cessando de matutar no desgraçado sucesso do seu vencimento. Consolava-o Sancho,...Porém, ai, mísero! que digo? Não sou eu o vencido? não sou eu o derribado? não sou eu que não posso pegar em armas durante um ano? Então que prometo? de que me gabo, se devo antes usar de cruz, que de espada? ...Com isto partiram ambos e, como se disse, D. Quixote e Sancho dois dias depois: D. Quixote, desarmado e a cavalo, e Sancho a pé, porque o ruço ia carregado com as armas.
Capítulo LXVI — Que trata do que verá quem o ler, ou do que ouvirá quem o ouvir ler
"Ao sair de Barcelona, voltou D. Quixote os olhos para o sítio onde caíra, e disse: — Aqui foi Tróia; aqui a minha desgraça, e não a minha covardia, me tirou as glórias que eu alcançara; aqui usou a fortuna comigo das suas voltas; aqui se escureceram as minhas façanhas; aqui, enfim, caiu a minha ventura, para nunca mais se levantar. Ouvindo isto, disse Sancho:— É tanto de valentes corações o serem sofridos nas desgraças, como alegres nas prosperidades, meu senhor; ......
"Nestas práticas e arrazoados passaram todo aquele dia e ainda mais quatro, sem lhes suceder coisa que lhes estorvasse o caminho;...."
"Passaram aquela noite amo e criado no meio do campo ao sereno e, ao outro dia, seguindo o seu caminho, ....
"...e, levantando-se, depois de ter sacudido o saio e as migalhas das barbas, enxotou o ruço adiante de si e, dizendo adeus a Tosilos, deixou-o e foi apanhar seu amo, que o estava esperando à sombra de uma árvore.
Capítulo LXVII — Da resolução que tomou D. Quixote de se fazer pastor e seguir a vida do campo, durante o ano da sua promessa, com outros sucessos, na verdade gostosos e bons "...— É este o prado em que topamos as bizarras pastoras e galhardos pastores, que aqui queriam imitar e renovar a pastoril Arcádia — pensamento novo e discreto, a cuja imitação, se isso te agrada, quereria eu, Sancho, que nos convertêssemos em pastores, pelo menos durante o tempo em que eu tiver de estar recolhido. Comprarei algumas ovelhas e tudo o mais que é necessário para o exercício pastoril; e, chamando-me eu o pastor Quixotiz, e tu o pastor Pancino, andaremos por montes, selvas e prados, cantando ali, recitando endechas acolá, bebendo os límpidos cristais, ou das fontes, ou dos regatos, ou dos rios caudalosos. Dar-nos-ão, com mão abundantíssima, o seu dulcíssirno fruto as altas carvalheiras, assento os troncos dos duríssimos sobreiros, os salgueiros sombra, aroma as rosas, alfombra matizada de mil cores os extensos prados, o ar o seu puro e claro bafejo, luz as estrelas, e a lua, rompendo a escuridade da noite, suave prazer o canto, alegria o choro, versos Apolo, e o Amor conceitos, com que poderemos eternizar a nossa fama, não só nos presentes, mas também nos porvindouros séculos. ...
"...Mas deixemo-nos disto e, como a noite já vem próxima, retiremo-nos da estrada real um pedaço e procuremos sítio onde passar a noite; Deus sabe o que amanhã sucederá. Retiraram-se, cearam tarde e mal, bem contra vontade de Sancho, a quem desagradavam os jejuns da cavalaria andante, principalmente comparados com as abundâncias da casa de D. Diogo de Miranda, das bodas do opulento Camacho e da habitação de D. Antônio Moreno. Mas considerava que não era possível ser sempre dia; e assim, passou esta noite dormindo, e seu amo velando."
Capítulo LXVIII — Da aventura suína que aconteceu a D. Quixote
"Era a noite um pouco escura, apesar de estar a lua no céu, mas não em sítio em que pudesse ser vista, que às vezes a senhora Diana vai passear para os antípodas e deixa os montes negros e os vales escuros. Satisfez D. Quixote as reclamações da natureza, dormindo o primeiro sono sem dar lugar ao segundo, bem às avessas de Sancho, que nunca teve segundo sono, porque dormia desde o cair da noite até ao romper da manhã, fato em que se mostravam a sua boa compleição e poucos cuidados. Os de D. Quixote desvelaram-no tanto, que acordou Sancho.......
"...Estavam nisto, quando sentiram um surdo estrondo e um áspero ruído, que por todos aqueles vales se estendia. Pôs-se de pé D. Quixote e levou a mão à espada, e Sancho acachapou-se debaixo do muro, pondo de cada lado o feixe das armas e a albarda do seu juramento, com medo igual ao alvoroto de D. Quixote.Cada vez ia crescendo mais o ruído e aproximando-se dos dois medrosos, pelo menos de um, porque do outro já conhecemos a valentia. A bulha provinha de mais de seiscentos porcos que uns homens levavam a vender a uma feira; e era tal o barulho dos seus passos, o grunhir e o bufar, que ensurdeceram D. Quixote e Sancho, os quais nem imaginaram o que podia ser. Chegou de tropel o extenso e grunhidor batalhão, e sem respeitar a autorizada presença de D. Quixote e de Sancho, desfez as trincheiras que este último erguera e derribou não só D. Quixote, mas atirou também de pernas ao ar Rocinante. O tropear, o grunhir, a rapidez com que chegaram os animais imundos, puseram em confusão, no meio da relva, a albarda, as armas, o ruço, Rocinante, Sancho e D. Quixote...."
"....Tornaram ambos à interrompida viagem e, ao declinar da tarde, viram que para eles vinham uns dez homens de cavalo e quatro ou cinco a pé. Sobressaltou-se o coração de D. Quixote e desfaleceu o de Sancho, porque a gente, que se dirigia para eles, trazia lanças e adagas e vinha como que em som de guerra. Voltou-se D. Quixote para Sancho e disse-lhe: — Se eu pudesse, Sancho, exercitar as armas e não estivesse com as mãos atadas pela minha promessa, esta máquina que vem sobre nós seria para mim pão com mel; mas pode ser que saia coisa diferente do que receamos...Chegaram nisto os cavaleiros e, enristando as lanças, sem dizer palavra, rodearam D. Quixote e apontaram-lhas às costas e ao peito, ameaçando-o de morte. Um dos homens a pé, com um dedo na boca, em sinal de que se calasse, agarrou no freio de Rocinante e tirou-o para fora da estrada, e os outros peões, levando adiante de si Sancho e o ruço, e guardando todos maravilhoso silêncio, seguiram os passos do que conduzia D. Quixote, que por duas ou três vezes quis perguntar para onde é que o levavam, ou o que lhe queriam; mas, apenas principiava a mexer os lábios, quando lhos fechavam logo com os ferros das lanças; e a Sancho acontecia o mesmo, porque, apenas dava sinais de falar, logo um dos peões com um aguilhão o picava, e ao ruço também, como se o ruço também quisesse falar...Chegaram nisto, quase à uma hora da noite, a um castelo, que D. Quixote bem conheceu que era o do duque, onde havia pouco tempo tinham estado. — Valha-me Deus! — disse ele, apenas conheceu a casa — que será isto? pois nesta casa não é tudo cortesia e comedimento? Mas para os vencidos muda-se o bem em mal e o mal em pior. Entraram no pátio principal do castelo e viram-no arranjado e adornado de modo que ainda mais pasmados ficaram, como se poderá ver no seguinte capítulo."
Capítulo LXIX — Do mais raro e mais novo sucesso, que em todo o decurso desta grande história aconteceu a D. Quixote
"...No meio do pátio, a duas varas do chão, levantava-se um túmulo, todo coberto com um grandíssimo dossel de veludo negro,...Quem não se havia de admirar com isto, juntando-se-lhe o ter conhecido D. Quixote que o cadáver que estava no túmulo era o da formosa Aitisidora? ....Ao subirem ao tablado o duque e a duquesa, levantaram-se D. Quixote e Sancho, fizeram-lhes um profundo cumprimento, a que os duques corresponderam com uma ligeira inclinação de cabeça."
Saiu nisto um beleguim e, chegando-se a Sancho, deitou-lhe aos ombros uma roupa de bocaxim negro, toda pintada de labaredas; e, tirando-lhe a carapuça, pôs-lhe na cabeça uma mitra, à moda das que levam os penitenciados dos autos-de-fé, e disse-lhe ao ouvido que não abrisse o bico, porque lhe poriam uma mordaça, ou lhe tirariam a vida. Olhava Sancho para si dos pés à cabeça; via-se ardendo em chamas, mas, como o não queimavam, não fazia caso delas. Tirou a mitra e viu-a pintada de diabos, e tornou-a a pôr, dizendo entre si:— Ainda bem que nem elas me abrasam, nem eles me levam.... "...— Eia, ministros desta casa, altos e baixos, grandes e pequenos: acudi uns atrás dos outros e arrumai no rosto de Sancho vinte e quatro tabefes, e nos seus braços e lombos doze beliscões e seis picadas de alfinetes, que nesta cerimônia consiste a salvação de Altisidora....Rompeu também o silêncio D. Quixote, dizendo a Sancho:— Tem paciência, filho, e dá gosto a estes senhores e muitas graças ao céu por ter posto na tua pessoa tal virtude, que, com o teu martírio, desencantes encantados e ressuscites mortos...Nisto, Altisidora, que naturalmente estava cansada, por ter estado tanto tempo de costas, virou-se para um lado; e, vendo isto os circunstantes, disseram todos a uma voz:— É viva Altisidora, Altisidora vive...— Agora é que é ocasião, filho das minhas entranhas, mais do que escudeiro meu, de que arrumes em ti alguns dos açoites a que estás obrigado, para o desencantamento de Dulcinéia....Já a este tempo Altisidora se sentara no seu túmulo e no mesmo instante soaram as charamelas...Mandou o duque despejar o pátio, que todos se recolhessem aos seus aposentos..."
Capítulo LXX — Que se segue ao sessenta e nove e trata de coisas que não são escusadas para a clareza desta história
"...Altisidora, ... entrou pelo quarto de D. Quixote; e este, vendo-a, turbado e confuso,...Mas diga-me, senhora, e queira o céu conceder-lhe mais brando enamorado que meu amo: que é que viu no outro mundo? que há no inferno? porque, a esse paradeiro, há-de ir ter, por força, quem morre desesperado...— Quer que lhe diga a verdade? — respondeu Altisidora — parece-me que não morri de todo, porque não cheguei a entrar no inferno; e, se lá entrasse, decerto que não poderia sair. A verdade é que cheguei à porta, onde estavam jogando a péla cerca de uma dúzia de diabos, todos de calças e gibão e capas à walona, ...e o que mais me admirou foi estarem jogando a péla com livros que pareciam cheios de vento e de borra, ...naquele jogo todos grunhiam, todos arreganhavam o dente e todos se maldiziam"
"..mas estorvaram-no o duque e a duquesa, que vieram vê-lo; e houve entre eles larga e agradável prática, em que Sancho disse tais graças e malícias, que ficaram de novo admirados os duques, tanto da sua simplicidade, como da sua agudeza. D. Quixote pediu-lhes que lhe dessem licença para partir nesse mesmo dia porque, aos vencidos cavaleiros como ele, mais convinha habitar numa toca, do que em palácios reais...vestiu-se D. Quixote, jantou com os duques e partiu nessa tarde.
Capítulo LXXI — Do que sucedeu a D. Quixote com o seu escudeiro Sancho, quando ia para a sua aldeia
"...— Bem, senhor; quero-me dispor a ser-lhe agradável no que deseja, com proveito meu: que o amor de meus filhos e de minha mulher é que me faz interesseiro. Diga-me Vossa Mercê quanto me dá por açoite.— Se eu te fosse pagar conforme a grandeza e a qualidade do remédio — respondeu D. Quixote — não chegariam nem o tesouro de Veneza, nem as minas de Potosi; calcula o que tenho de meu, e vê por aí o que hás-de pedir.— Os açoites — respondeu Sancho — serão três mil trezentos e tantos; cinco já eu apanhei e restam os que ficam; façamos de conta que os tais tantos são cinco e vamos lá aos três mil e trezentos; a quarto cada um, que não vai por menos, nem que o mundo todo mo ordene, fazem três mil e trezentos quartos; vem a ser os três mil quartos setecentos e cinqüenta reais, e os outros trezentos cento e cinqüenta meios reais, ou setenta e cinco reais, que juntos com os setecentos e cinqüenta, fazem oitocentos e vinte e cinco reais. Tiro estes dos que tenho de Vossa Mercê em meu poder, e entro em minha casa rico e contente, apesar de açoitado, porque não se apanham trutas......"
"...Entraram, finalmente, num ameno arvoredo, que estava pouco desviado do caminho e onde se apearam e se estenderam na verde relva, e cearam da despensa de Sancho; este, fazendo do cabresto e da reata do ruço um forte e flexível chicote, retirou-se para entre umas faias, a uns vinte passos de seu amo...Despiu-se logo de meio corpo para cima e, sacudindo o cordel, começou a açoitar-se, e D. Quixote a contar os açoites. Talvez Sancho já tivesse dado em si próprio seis ou oito, quando lhe pareceu que era pesada a brincadeira e baratíssimo o preço; e, demorando-se um pouco, disse a seu amo que se tinha enganado e que cada açoite daqueles merecia um real, e não um quarto...— Não permita a sorte, Sancho amigo, que, para me dares gosto, percas a vida, que há-de servir para sustentar tua mulher e teus filhos; espere Dulcinéia melhor conjuntura e eu me conterei dentro dos limites da propínqua esperança e esperarei que cobres forças novas, para este negócio se concluir a aprazimento de todos...— Já que Vossa Mercê assim o quer, meu senhor — respondeu Sancho — seja em boa hora; e deite-me a sua capa aos ombros, estou suando e não me queria constipar, porque os penitentes novatos correm esse perigo..
"Assim fez D. Quixote, e Sancho adormeceu, até que o sol o despertou, e tornaram logo a seguir o seu caminho, indo parar a um sítio que ficava dali a três léguas. Apearam-se numa estalagem,...Mas, deixando isso, dize-me Sancho, se tencionas pregar em ti mesmo outra tunda esta noite, e se queres que seja debaixo de telha, ou ao ar livre. — Eu lhe digo, senhor — respondeu Sancho — a sova que tenciono pregar em mim próprio, tanto me importa que seja em casa, como no campo, mas, com tudo isso, desejaria antes entre arvoredos; parece que me acompanham e me ajudam a levar o meu trabalho maravilhosamente. — Pois não há-de ser assim, Sancho amigo — respondeu D. Quixote; — como é necessário que tomes forças, guardemos isso para a nossa aldeia, aonde chegaremos, o mais tardar, depois de amanhã...."
Capítulo LXXII — De como D. Quixote e Sancho chegaram à sua aldeia
"...Nisto chegou a hora de jantar e jantaram juntos D. Quixote e D. Álvaro. Entrou, por acaso, o alcaide do povo na estalagem com um escrivão, e perante esse alcaide fez o nosso D. Quixote um requerimento, dizendo que ao seu direito convinha que D. Álvaro Tarfé, esse cavalheiro que estava presente, declarasse diante de Sua Mercê que não conhecia o famoso D. Quixote de la Mancha, que também presente se achava, e que não era ele que figurava numa história, impressa com o título de Segunda parte de D. Quixote de la Mancha, composta por um tal Avelaneda, natural de Tordesilhas. Enfim, o alcaide proveu juridicamente e fez-se a declaração com todas as formas que em tais casos se deviam fazer; com isso ficaram D. Quixote e Sancho muito alegres, como se fosse de grande importância para eles tal declaração e não mostrassem claramente a diferença dos dois Quixotes e dos dois Sanchos as suas obras e as suas palavras...."
"...Chegou a tarde, partiram-se daquele lugar e, a obra de meia légua, tomaram dois caminhos diferentes: um que ia ter à aldeia de D. Quixote, e o outro por onde havia de seguir D. Álvaro...o qual, abraçando D. Quixote e Sancho, seguiu o seu caminho, e D. Quixote continuou no seu, indo passar essa noite a outro arvoredo, para dar lugar a Sancho que cumprisse a sua penitência, o que ele fez do mesmo modo que na noite anterior, à custa da cortiça das faias, muito mais que das suas costas, que a essas guardou-as tanto, que os açoites nem uma mosca lhe poderiam sacudir. ...
"...subiram por uma encosta arriba, donde descobriram a sua aldeia e, vendo-a Sancho, pôs o joelho em terra e disse: — Abre os olhos, desejada pátria, e vê que a ti volve Sancho Pança, teu filho, não muito rico, mas muito bem açoitado. Abre os braços e recebe também teu filho D. Quixote que, se vem vencido pelos braços alheios, vem vencedor de si mesmo, o que, segundo ele me tem dito, é o melhor vencimento que se pode desejar. Trago dinheiro, porque, se bons açoites me davam, muito bem mos pagavam. — Deixa-te dessas sandices — acudiu D. Quixote; — vamos entrar no nosso lugar com pé direito e lá daremos largas à nossa imaginação e pensaremos no modo como havemos de exercitar a nossa vida pastoril. Com isto, desceram a encosta e foram para a sua povoação."
Capítulo LXXIII — Dos agouros que teve D. Quixote ao entrar na sua aldeia, com outros sucessos que são adorno e crédito desta grande história
"...Ia Sancho para lhe responder, quando viu que vinha fugindo pela campina fora, uma lebre, seguida por muitos galgos e caçadores, que veio acolher-se, receosa, e acachapar-se debaixo dos pés do ruço. Apanhou-a Sancho sem dificuldade e apresentou-a a D. Quixote, que estava dizendo: — Malum signum, malum signum: lebre foge, galgos a seguem, Dulcinéia não aparece. — Vossa Mercê é esquisito — disse Sancho; — suponhamos que essa lebre é Dulcinéia del Toboso, e estes galgos, que a perseguem, são os malandrinos nigromantes que a transformaram na lavradeira: ela foge, eu apanho-a e entrego-a a Vossa Mercê, que a tem nos seus braços, e a regala e amima: que mau sinal é este, ou que mau agouro se pode tirar daqui?..." "...Chegaram os caçadores, pediram a sua lebre, deu-lha D. Quixote; e, seguindo para diante este e Sancho Pança, toparam à entrada do povo, a passear num campo, o cura e o bacharel Sansão Carrasco. E é de saber que Sancho Pança deitara para cima do burro e do feixe das armas, para servir de reposteiro, a túnica de bocaxim pintada com chamas de fogo, que lhe vestiram no castelo do duque, na noite em que Altisidora tornou a si. Pôs-lhe também a mitra na cabeça, que foi a mais nova transformação e adorno com que nunca se viu um jumento neste mundo. Foram logo conhecidos ambos pelo cura e pelo bacharel, que vieram para eles de braços abertos....
Capítulo LXXIV — De como D. Quixote adoeceu, e do testamento que fez, e da sua morte
""Como as coisas humanas não são eternas e vão sempre em declinação desde o princípio até ao seu último fim, especialmente as vidas dos homens; e como a de D. Quixote não tivesse privilégio do céu para deixar de seguir o seu termo e acabamento, quando ele menos o esperava; porque, ou fosse pela melancolia que lhe causara o ver-se vencido, ou pela disposição do céu, que assim o ordenava, veio-lhe uma febre, que o teve seis dias de cama, sendo visitado muitas vezes pelo cura, pelo bacharel e pelo barbeiro, seus amigos, sem se lhe tirar da cabeceira o seu bom escudeiro Sancho Pança...Chamaram os seus amigos o médico, tomou-lhe este o pulso e disse-lhe que, pelo sim pelo não, cuidasse da salvação da sua alma, porque a do corpo corria perigo. Ouviu-o D. Quixote com ânimo sossegado, mas não o ouviram da mesma forma a ama, a sobrinha e o escudeiro, que principiaram a chorar ternamente, como se já o tivessem morto diante de si. O médico foi de parecer que o que dava cabo dele eram melancolias e desabrimentos..."....."
"...Chama-me os meus bons amigos, o cura, o bacharel Sansão Carrasco, e mestre Nicolau, o barbeiro, que me quero confessar e fazer o meu testamento. Mas a entrada dos três dispensou a sobrinha de ter esse trabalho....— Dai-me alvíssaras, bons senhores, que já não sou D. Quixote de la Mancha, mas sim Alonso Quijano, que adquiri pelos meus costumes o apelido de Bom. Já sou inimigo de Amadis de Gaula e da infinita caterva da sua linhagem; já me são odiosas todas as histórias profanas de cavalaria andante; já conheço a minha necedade e o perigo em que me pôs o tê-las lido; já por misericórdia de Deus, e bem escarmentado, as abomino....Cerrou com isto o testamento e, dando-lhe um desmaio, estendeu-se na cama. Alvorotaram-se todos e acudiram a socorrê-lo; e em três dias que viveu depois deste em que fez o testamento, desmaiava muito a miúdo.... Chegou, afinal, a última hora de D. Quixote, depois de recebidos todos os Sacramentos e de ter arrenegado, com muitas e eficazes razões, dos livros de cavalaria. Estava presente o tabelião, que disse que nunca lera em nenhum livro de cavalaria que algum cavaleiro andante houvesse morrido no seu leito, tão sossegada e cristãmente como D. Quixote, que, entre os suspiros e lágrimas dos que ali estavam, deu a alma a Deus: quero dizer, morreu. Vendo isto o cura, pediu ao tabelião que lhe passasse um atestado de como Alonso Quijano, o Bom, chamado vulgarmente D. Quixote de la Mancha, fora levado desta vida presente e morrera de morte natural; e que pedia esse atestado, para evitar que qualquer outro autor, que não fosse Cid Hamete Benengeli, o ressuscitasse falsamente e fizesse intermináveis histórias das suas façanhas.
Referências

