Como uma Copa com 64 seleções amplia a crise dentro da Fifa

Ex-diretor acusa Uefa, Concacaf e AFC de ‘agenda oculta’ contra a Fifa: ‘Nem têm direito de voto’
Ex-diretor acusa Uefa, Concacaf e AFC de ‘agenda oculta’ contra a Fifa: ‘Nem têm direito de voto’ · Imagem: Source: www.estadao.com.br

Crédito: Marcel Rizzo

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Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Gerando resumo

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Foto: Fecofa

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Entrevista comVéron Mosengo-Ombaex-diretor da Fifa, ex-secretário geral da CAF e presidente da Fecofa

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Véron Mosengo-Omba cursou a graduação na Suíça como colega de Gianni Infantino. Hoje o presidente da Associação de Futebol da República Democrática do Congo (Fecofa) diz apoiar o líder da Fifa não pela amizade, mas pelo trabalho desenvolvido em 10 anos de gestão.

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Foi em 2016 que Mosengo-Omba também ingressou na Fifa, chegando a ser diretor de associações. Ele deixou o cargo em 2021, quando assumiu como secretário-geral da Confederação Africana (CAF). A nova função durou até março deste ano. Desde maio, o presidente preside a Fecofa.

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Nessa trajetória, Mosengo-Omba encarou acusações de irregularidades, tanto na CAF quanto na recente eleição na RD Congo. Em conversa com o Estadão, o dirigente as rebate e também questiona os interesses de Uefa, Concacaf e AFC na oposição a Infantino, inflamada após a crise do plano comercial da Fifa apresentado após a Copa do Mundo.

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“Essas três instituições têm uma agenda oculta. Querem criar uma bagunça dessas por causa de uma proposta”, critica. “Elas não são membros da Fifa. Essas instituições não têm o direito de votar. Eu, como presidente de uma associação-membro, tenho mais poder do que elas. Eu posso votar e fazer propostas. Elas não podem votar”, cita, em referência à eleição presidencial de 2027.

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- Infantino perde apoio da Suíça, enquanto conquista ‘dissidentes’ de Uefa, AFC e Concacaf

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- ‘O futebol não precisa de imperadores’, diz presidente da Uefa sobre Infantino

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- ‘Dinheiro da Fifa é seu dinheiro’: Infantino irá distribuir parte de reservas a confederações

Ex-diretor acusa Uefa, Concacaf e AFC de ‘agenda oculta’ contra a Fifa: ‘Nem têm direito de voto’
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No pleito, Infantino busca o quarto mandato, algo permitido, já que o primeiro foi para substituir Joseph Blatter. As candidaturas serão inscritas até 28 de novembro. O pleito será em 28 de março, em Rabat, no Marrocos.

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Como você sustenta que Infantino ainda conta com apoio no Congresso da Fifa para a reeleição?

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O futebol mundial está um pouco abalado por causa de algumas pessoas. As pessoas, durante estes 10 anos, as associações-membro, a maioria delas sabe o que a governança do Infantino fez por elas. O trabalho entregue não é apenas sobre aumentar o dinheiro do programa Forward. Posso lhe dar um exemplo. Você sabe que Granada, a pequena ilha com menos de 200 mil habitantes, jogou uma partida amistosa em Ruanda. Existe a FIFA Series, e este é um exemplo no futebol. Se você olhar agora para o sub-17 e o sub-20, eles estão jogando todos os anos. Então, o Gianni fez muito. Nós somos os beneficiários disso.

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Um presidente de uma associação-membro me disse: “Nós pedimos ao Gianni para realizar 10 tarefas e ele entregou 9,5. Você acha justo criticar o Gianni por 0,5 ponto?”. Isso explica tudo. É por isso que se explica o apoio da maioria das associações-membro. Falo da massa de associações como a nossa: temos um país grande, uma população grande, mas menos recursos. Para ser claro, menos dinheiro. Sem o dinheiro da Fifa, não poderíamos desenvolver o nosso futebol. Então nos beneficiamos do bom trabalho que ele entregou. Por que deveríamos ser contra ele? Teríamos que ser contra ele se ele violasse os estatutos da Fifa.

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Véron Mosengo-Omba é um aliado de Gianni Infantino na busca pela reeleição na Fifa. Foto: Fecofa

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A Fifa rebate a Uefa, a Concacaf e a AFC, argumentando que não é de interesse deles, principalmente dos europeus, que a verba da Fifa seja mais bem distribuída entre as associações. Você concorda com essa visão?

Vamos começar pelo início da sua pergunta: por que você mencionou Concacaf, Uefa e AFC? Elas não são membros da Fifa. Essas instituições não têm o direito de votar. Eu, como presidente de uma associação-membro, tenho mais poder do que elas. Eu posso votar e fazer propostas. Elas não podem votar.

Em segundo lugar, o presidente da Concacaf não tem a maioria nem dentro da própria Concacaf. Uefa e AFC têm de perguntar às associações-membro de suas jurisdições o que elas pensam sobre o Gianni. A questão é que essas três instituições que você mencionou têm uma agenda oculta. Querem criar uma bagunça dessas por causa de uma proposta.

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E essa proposta (a FFE) é incrível. Veja La Liga. Eles venderam (quase) 10% dos direitos de TV e marketing para a CVC Partners, um fundo de investimento do Reino Unido. Na França, a liga profissional vendeu 13% da licença de direitos de TV e marketing e arrecadou 1,5 bilhão de euros. O Gianni não inventou isso. Quando aconteceu com essas duas ligas, as pessoas aplaudiram e disseram: “fantástico”. Quando o presidente Gianni tentou fazer o mesmo, tentaram destruí-lo. Isso significa uma coisa: eles têm uma agenda oculta. Não tenho outra explicação.

A questão é que essas três instituições têm uma agenda oculta. Querem criar uma bagunça dessas por causa de uma proposta.

Véron Mosengo-Omba, sobre Uefa, Concacaf e AFC

Você acha que a proposta da FFE funcionaria se não houvesse oposição da Uefa?

Honestamente, você pode dizer o que quiser, mas o futebol se tornou um negócio. Na RD Congo, temos quase 100 milhões de pessoas. É um país enorme com 26 províncias. Preciso colocar técnicos em cada província e precisamos pagá-los. De onde virá o dinheiro? Temos de aproveitar todo o valor comercial que o futebol traz para desenvolver a modalidade, manter sua popularidade, formar jogadores e pagar os treinadores. Nós precisamos de dinheiro. Como presidente da Fecofa, eu preciso desse dinheiro e desse projeto. Podemos ajustar algo, mas o projeto é perfeito. La Liga fez, a liga francesa fez e funcionou. Por que não na Fifa?

O que você ajustaria?

Eu proporia manter como está, mas pediríamos também para as confederações comprarem algumas ações. Pedir à África: “Vocês podem comprar 5%”; à Ásia: “vocês podem comprar 10%”; para ver se há interesse e recursos. Para a África, por exemplo, poderíamos pedir a três grandes bancos africanos que emprestem recursos à CAF para a compra das ações, reembolsando-os posteriormente com as receitas geradas. Esse é um exemplo do que se pode fazer. Vender partes do seu produto, marketing, licenças, é algo normal. Qual é o pecado em fazer isso? Qual foi o erro do Gianni ao propor isso?

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Você tem uma história antiga com Infantino. Como conciliar essa amizade com a independência política que você tem como presidente de uma associação-membro da Fifa?

Existem dois aspectos: a relação entre mim e o Gianni, e se essa relação impacta a governança. Gianni e eu nos conhecemos há mais de 30 anos. Fomos à universidade juntos. Por que somos amigos hoje? Porque compartilhamos os mesmos valores: integridade, respeito e solidariedade. Esses são os valores que vi no Gianni ao longo destes 30 anos, desde quando ele era estudante, quando se tornou secretário-geral da Uefa e mesmo quando trabalhou para ligas.

É um longo caminho juntos. Essa relação não cega a ele nem a mim para vermos as coisas com objetividade. Eu não apoio o Gianni por ele ser meu amigo. Apoio o Gianni porque, em primeiro lugar, ele cumpre o que promete desde a sua campanha para a presidência.

Em segundo lugar, porque ele não fez nada de errado. Se o Gianni cometesse um erro, eu seria o primeiro a ligar para ele em particular e dizer: “Meu querido irmão, isso está errado”. Mas não, por essas duas razões eu o apoio: ele entrega o que promete e não fez nada de errado. O “erro” dele foi vir com essa proposta. É por isso que eu apoio o Gianni. Não o apoio quando está errado. Apoio quando ele faz um trabalho benéfico para o futebol.

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Você acha que ele comentou algum erro como presidente da Fifa?

Ele é um ser humano, pode cometer erros. Eu cometo erros todos os dias. Quando eu era secretário-geral da CAF, cometi erros. A questão é que temos que aprender com nossos erros e seguir em frente. O importante é reconhecer e avançar.

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Para mim, ele não cometeu um erro. Se você ler a carta que o presidente Gianni enviou às associações-membro, verá que Uefa, Concacaf e AFC agiram com muita má-fé. Na carta, o presidente disse: “este projeto só pode funcionar por duas razões: se a maioria das associações-membro aceitar na votação e o Conselho da Fifa aprovar”. Mostre-me um democrata como esse. Ele escreveu isso na carta.

Se, apesar disso, tentam atacá-lo assim, não é justo. É por isso que vou lutar contra isso até o fim, porque todos eles agiram com má-fé. Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, modificou o estatuto para permanecer no poder e ninguém disse nada. Sheikh Salman, na Ásia, alterou o estatuto da AFC para remover o limite de três mandatos e ninguém disse nada. O que eles fizeram é errado. O Gianni não fez nada de errado.

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Véron Mosengo-Omba comemorou, com Infantino, os 10 anos do presidente na Fifa, em Miami, no começo de 2026. Foto: Véron Mosengo-Omba via X

Que erros você cometeu como secretário-geral da CAF? Há acusações de obstrução de processos contra você.

Cometi erros, mas não violei os princípios da boa governança. Há uma grande diferença. Os erros que cometi foram projetos que não fiz avançar o suficiente, como a Liga Africana de Futebol. Isso é algo que eu deveria, junto do presidente, ter concretizado totalmente. Foi uma falha minha. Deixei a CAF sem concretizar isso totalmente.

O mesmo ocorreu com o Campeonato Africano de Futebol Escolar, que não levei ao nível que esperava. Essas foram falhas. Mas, sobre as pessoas que dizem que fiz obstrução: eu não faria obstrução por simplesmente distribuir bolas para as associações-membro. Eram pessoas que queriam controlar a CAF, e eu as impedi. Trata-se apenas de boa governança. Quando as regras de boa governança são aplicadas, e eu era a ferramenta para implementá-las, elas não ficam felizes. Essa é a única razão. Ninguém pode trazer provas de que cometi qualquer irregularidade.

Quando você assumiu a Fecofa, quais vulnerabilidades administrativas você identificou e que exigiram correção?

São muitas. Honestamente, sem apontar pessoas, não temos a administração de futebol que este país merece. A administração não existia, a arbitragem era uma grande bagunça e a justiça desportiva também. Temos que colocar tudo isso em ordem. Hoje, na RD Congo, quando a liga joga, os estádios estão vazios porque as pessoas dizem que já sabem quem vai ganhar devido à corrupção.

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O resultado rápido que implementamos foi dar contratos a 70 árbitros pagos pela federação. No entanto, há regras: se avaliarmos um jogo e, de 10 pontos, o árbitro tirar nota 5, ele recebe uma segunda chance. Se no jogo seguinte tirar nota 5 novamente, é expulso. Acreditamos que essa é uma forma de pagar corretamente e exigir transparência. Além disso, pela primeira vez na história do futebol do país, estamos fazendo processos seletivos abertos para os cargos na federação. Vamos contratar pessoas qualificadas. Nada de contratar o cunhado, o primo ou a amante de ninguém. Isso acabou.

Há quem questione sua eleição também.

Tivemos uma eleição. Se alguém acredita que algo estava errado, tem o direito de contestar. Eles contestaram a eleição no Tribunal Arbitral do Esporte (CAS). Boa sorte a eles. Nós estamos tranquilos e serenos, deixando o processo correr.

RD Congo empatou com Portugal na estreia da Copa do Mundo de 2026. Foto: Fecofa

Como você avalia a participação da seleção na Copa do Mundo, considerando os grandes jogos contra Portugal e Inglaterra?

Eu não fiquei feliz, fiquei triste. Claro que, após 52 anos, voltar à Copa do Mundo foi histórico. Quando empatamos com Portugal, as pessoas comemoraram, mas eu disse: “Não, tínhamos de vencê-los”. A maioria dos nossos jogadores atua na Europa. Eles têm o mesmo nível de treinamento e preparação.

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Essa evolução ocorreu graças ao Gianni. A Uefa o criticou por causa da expansão para 48 seleções, insinuando que isso favorecia a África. Olhe para a CAF e para a RD Congo: demonstramos que podemos competir com os melhores do mundo.

De volta à RD Congo, acho que foi uma boa campanha, mas ainda fico chateado quando penso no jogo contra a Inglaterra. Nós tínhamos obrigação de vencer, ponto final. Mas aprendemos a lição. Acreditamos que, quando voltarmos em 2030, na Espanha, Marrocos e Portugal, será uma história diferente.

Você apoia ou tem opinião sobre qual cidade deveria sediar a final da próxima Copa do Mundo? Há uma disputa em andamento.

Nossos irmãos da Espanha e de Portugal têm de entender que a África organizou apenas uma final de Copa do Mundo em toda a história. A Europa organizou quantas?

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Marrocos está construindo um dos estádios mais bonitos do mundo para receber a final. A África merece e Marrocos merece, porque esta não é a Copa de Marrocos, é a Copa da África. A África merece ter essa final em Marrocos.

O árbitro africano Omar Artan não pôde atuar nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo e teve de retornar à Somália. O que você pensa sobre essa situação?

Assim que aconteceu, enviei uma mensagem para ele. Quando eu trabalhava na CAF, ele era um dos árbitros que me fazia dormir tranquilo quando apitava, pois sabia que tudo correria bem. Foi uma situação muito triste, mas não aceito que culpem a Fifa e o Gianni por isso. Isso é incorreto. Quantos jogadores africanos têm o visto negado no último minuto para viajar ou treinar na Europa? Não conheço os detalhes do processo de visto dele com a embaixada, mas não podemos colocar essa responsabilidade nos ombros do Gianni. É injusto. A Fifa fez tudo o que podia para garantir a presença da maioria das associações-membro. Foi lamentável e desconfortável, mas jamais responsabilidade do Gianni.

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