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Em vídeo publicado nesta terça-feira, 20, Dia Mundial de Combate ao Bullying, o influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, relata episódios de bullying que sofreu durante a infância e a adolescência. As experiências negativas, diz, contribuíram para um diagnóstico de fobia social e diversas dificuldades que permanecem na vida adulta.

Felca anuncia retorno às redes sociais após sete meses afastado. Foto: Felca via YouTube

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Hoje, aos 27 anos, Felca diz que ainda sofre com batimento cardíaco acelerado – entre 138 e 150 bpm quando está em lugares públicos, cercados por pessoas.

Segundo especialistas, esse pode, sim, ser um reflexo do tempo em que foi vítima de agressões. “Toda violência deixa marcas profundas na constituição psíquica e na subjetividade do sujeito. Quando a estrutura emocional dá a essa dor uma saída mais passiva, a evitação surge como sintoma. A fobia é justamente uma dessas manifestações”, diz Angelita Wisnieski da Silva, coordenadora de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe.
Ela explica que a fobia social é um transtorno de ansiedade e um quadro psíquico caracterizado pela evitação deliberada de situações sociais ou de exposição pública devido a um estado de intensa angústia. “É uma forma de dar saída a algo que está incomodando muito.”
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O quadro é diferente da timidez, envolvendo reações físicas e emocionais profundas. No vídeo, Felca relata estar há cinco meses sem sair de casa. “Tudo o que eu vejo todos os dias é teto, chão e parede”, diz.
Angelita explica que o ato de se trancar em casa funciona como uma tentativa drástica da mente de se resguardar. Ao evitar o público e o contato social, evita-se o risco de reviver o constrangimento, a dor e a angústia provocados no passado.
A neuropsicóloga Veruska Mendes Vasconcelos, coordenadora de psicologia do Hospital Alvorada Moema, comenta que quem foi constantemente ridicularizado pode continuar esperando rejeição mesmo em ambientes seguros.
“Depois de ouvir repetidamente que não é capaz ou interessante, a pessoa passa a repetir essas mensagens para si mesma. É como se a violência terminasse do lado de fora, mas continuasse presente na maneira como ela se trata”, diz.
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O isolamento passa a ser cíclico. A falta de convivência presencial e de trocas reais no dia a dia enfraquece a capacidade de construir vínculos e lidar com as adversidades. “A evitação alivia a ansiedade naquele momento, mas pode manter o medo ao reduzir oportunidades de experiências sociais seguras”, comenta a neuropsicóloga.
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Diagnóstico e tratamento
Segundo Angelita, o diagnóstico de fobia social ocorre por meio de uma avaliação multidisciplinar, com psicólogo e psiquiatra. Trata-se de um processo criterioso e cuidadoso que analisa a intensidade da angústia e do comportamento de evitação para verificar se, de fato, trata-se de um quadro psíquico estruturado.
Alexandre Leal Laux, psiquiatra e professor do curso de medicina da Faculdade Pequeno Príncipe, ressalta que eventos negativos como o bullying podem contribuir para o surgimento da fobia social, porém nem todas as vítimas de agressão desenvolvem o transtorno. “Existe uma vulnerabilidade individual associada para que o quadro se manifeste”, afirma Laux.
O médico afirma que o tratamento é baseado em dois pilares. O primeiro, medicamentoso e conduzido pelo psiquiatra, e segundo não medicamentoso, baseado no acompanhamento psicológico.
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“O tratamento é realizado com medicamentos que atuam na serotonina, usualmente chamados de antidepressivos, já que esse mecanismo proporciona alívio de sintomas ansiosos físicos e cognitivos”, explica. “(Mas) o tratamento não medicamentoso é até mais importante e se baseia na psicoterapia cognitivo-comportamental (TCC).”
A TCC trabalha a correção de pensamentos prejudiciais e tenta melhorar o comportamento do paciente. No caso da ansiedade social, por exemplo, isso implica reduzir o temor de ser avaliado negativamente e estimular a exposição a situações que normalmente causam algum desconforto – justamente para que haja melhora do comportamento de evitação.
Angelita também enfatiza a importância da reinserção em atividades coletivas, lembrando que ela deve ser feita em ambientes controlados e com orientação profissional, sem exposições forçadas a qualquer custo. Caso contrário, pode haver a reativação da angústia.
Conscientização
O vídeo lançado por Felca nesta terça é o primeiro desde “Adultização”, publicado há cerca de um ano. Na época, o influenciador ajudou a pautar o debate nacional sobre proteção de crianças e adolescentes na internet.
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Fizemos uma experiência nas redes sociais: como são os algoritmos e a ‘adultização’ das crianças?
Crédito: Larissa Burchard/Estadão
Agora, Felca diz que pretende transformar a própria dor em um propósito coletivo: conscientizar sobre a saúde mental e incentivar outras pessoas a saírem do isolamento.
Ele propõe um desafio coletivo de três meses voltado à dessensibilização da ansiedade social, o “Sinfel”. A proposta consiste em dizer “sim” para convites e oportunidades de sair de casa e interagir com as pessoas.
Felca também se comprometeu a dar palestras sem custos em instituições de ensino por todo o País para conscientizar estudantes, pais e educadores sobre as consequências do bullying.
Para Veruska, a reflexão mais importante do vídeo é que nenhuma criança precisa aprender a suportar humilhações para se tornar emocionalmente forte. “Bullying não é uma etapa natural do crescimento, mas uma violência que precisa ser reconhecida, interrompida e prevenida.”
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