Os enterococos resistentes à vancomicina (conhecidos internacionalmente pela sigla VRE ou ERV) representam um grupo crítico de estirpes bacterianas, pertencentes sobretudo às espécies Enterococcus faecium e, em menor escala, Enterococcus faecalis, que adquiriram resistência aos antibióticos glicopeptídeos (como a vancomicina e a teicoplanina), tradicionalmente reservados para combater infeções graves por cocos Gram-positivos multirresistentes. Originários como comensais do trato gastrointestinal e do aparelho genital feminino, estes micro-organismos atuam como patógenos oportunistas e disseminam-se de forma endémica ou epidémica em ambientes de cuidados de saúde. O mecanismo molecular subjacente a esta resistência baseia-se na aquisição de complexos operões genéticos (sendo os fenótipos vanA e vanB os mais prevalentes) que alteram o precursor do peptidoglicano da parede celular bacteriana de D-alanil-D-alanina para D-alanil-D-lactato ou D-alanil-D-serina, inviabilizando por completo a ligação e a eficácia terapêutica do fármaco. A transmissão ocorre primariamente através do contacto direto com as mãos contaminadas dos profissionais de saúde ou de forma indireta pelo contacto com superfícies de uso comum e equipamentos biomédicos inertes, onde a bactéria demonstra uma excecional capacidade de sobrevivência prolongada por semanas ou meses. Embora a maioria dos indivíduos permaneça assintomática na condição de portador (colonização intestinal), a rutura das barreiras anatómicas devido a cirurgias, internamentos prolongados em unidades de cuidados intensivos (UCI) ou imunossupressão grave pode desencadear infeções clínicas severas. Estas manifestam-se frequentemente como infeções do trato urinário, bacteriemias secundárias a cateteres vasculares, endocardite infeciosa e infeções profundas de feridas cirúrgicas. As opções para o tratamento clínico de primeira linha são severamente limitadas, obrigando os clínicos a recorrer a agentes antimicrobianos de reserva estrita, tais como as oxazolidinonas (linezolida e tedizolida) e a daptomicina, recorrendo-se por vezes à monitorização terapêutica de fármacos (TDM) para otimizar as doses e conter a elevada taxa de mortalidade associada a estes quadros. Face ao restrito arsenal terapêutico e à rápida dispersão do micro-organismo, os pilares fundamentais para o controlo epidemiológico da VRE exigem uma infraestrutura hospitalar focada na triagem por zaragatoas retais de vigilância ativa, isolamento rigoroso dos doentes positivos sob precauções de contacto, higienização sistemática das mãos, desinfeção terminal do ambiente clínico e programas rigorosos de stewardship (gestão controlada) de antimicrobianos.
Referências